A selva revela seus fósseis
PUBLICAÇÃO
domingo, 11 de abril de 1999
Fernanda Paiva Ciência Hoje 
Duas importantes descobertas paleontológicas foram feitas na floresta amazônica no ano passado: pela primeira vez do mundo, foram encontradas mandíbulas de uma Pseudoprepotherium venezuelanum, um preguiça de 3,5 m. Foi achado também o segundo crânio mais completo de Purussaurus brasiliensis, um crocodilo gigante de 8 milhões de anos. Os ossos, ambos do período Mioceno Superior (entre 6 e 10 milhões de anos atrás), foram escavados por uma equipe de paleontólogos da Universidade Federal do Acre (UFAC) na selva da Amazônia.
Reprodução/Ciência HojeO paleontólogo Ricardo Negri quando tentava remover o crânio do crocodilo ainda coberto por crosta sedimentarOs mais importantes sítios fossolíferos da região são o Cachoeira do Bandeira, na fronteira com a Bolívia, e o Niterói, a 20 km de Rio Branco. Os locais ficam às margens do rio Acre, o que permite aos pesquisadores viajar de barco para alcançá-los. As águas do rio, aliás, exercem importante papel na busca pelos fósseis: são elas que escavam a terra. Não sabemos onde está um fóssil, por isso deixamos o rio fazer o trabalho, explica Francisco Ricardo Negri, zoólogo e um dos integrantes do Laboratório de Pesquisas Paleontológicas da UFAC.
Como o processo de escavação é natural, os fósseis mais antigos encontrados nos sítios têm em torno de 8 milhões de anos. A exceção fica por conta da região da serra do Moa, no noroeste do estado, onde em 1991, foram descobertos dentes de tubarão com mais de 60 milhões de anos, idade referente ao período Cretáceo Superior (entre 65 e 100 milhões de anos).
O trajeto entre a cidade de Assis Brasil e Cachoeira do Bandeira, onde foi descoberto o crânio de crocodilo, pode ser percorrido em menos de quatro horas. As expedições são feitas somente no período de seca, ou seja, entre abril e outubro, quando as águas do rio estão mais baixas.
Reprodução/Ciência HojeO mapa mostra a região dos sítios fossilíferos do Acre, na fronteira do Brasil com o Peru e a BolíviaCom as descobertas realizadas em campo, é possível compreender melhor como era a vida na maior floresta tropical do planeta milhões de anos atrás. Segundo o professor Edson Guilherme da Silva, pesquisador da equipe da UFAC, fósseis como o de crocodilo e preguiça gigantes que encontramos este ano reforçam a tese de que a Amazônia era um enorme pântano rodeado de campos com árvores de porte médio.
O ambiente era o lar ideal para o Purussauru de 15 m de comprimento - o dobro dos maiores crocodilos de hoje em dia. Ainda segundo Edson, as árvores deveriam ser esparsas para permitir a locomoção de seres tão grandes, sendo os campos a vegetação dominante.Reprodução/Ciência HojeRéplica do crânio do Purussaurus brasiliensis: animal tinha 15 metros de comprimentoOs fósseis de um preguiça e um crocodilo gigantes, encontrados na Amazônia, fornecem pistas importantes sobre a vida na selva há milhões de anos


