Chuva, trovões, relâmpagos. Nem todo mundo consegue se manter calmo durante uma tempestade. O medo, quase sempre, tem um motivo: os raios. Cem milhões deles atingem o Brasil a cada ano, mas apesar de ser um fenômeno comum à rotina das pessoas, pouca gente sabe explicá-lo. Com base em uma pesquisa de campo, alunos do curso de especialização em Química da Faculdade de Ciências e Letras de Jacarezinho (Norte do PR) buscaram dados com a população na intenção de descobrir se as pessoas estão inteiradas ou não ao assunto.
Mas qual a importância do trabalho e o que ele quer provar? Sabe-se que um raio pode até matar e que milhares de pessoas ficam apavoradas ao ouvir os trovões e ver os relâmpagos nos dias de chuva. Mas muita gente não sabe que os raios descarregados podem poluir o ambiente. Esta é a principal questão do trabalho desenvolvido pelo grupo.
De 23 referências consultadas pelos alunos, apenas em quatro havia um pequeno comentário sobre a possibilidade de haver poluição da atmosfera a partir da ação dos raios. O trabalho de campo apurou que dos 1932 entrevistados (53,4% com nível superior completo), 65,1% não sabiam responder o que é um raio, 93% não sabiam se os raios poluem ou não e 98% se interessaram em saber a resposta.
O raio é uma forte descarga elétrica entre uma nuvem e a Terra. O que acontece é que, nas tempestades, a violenta agitação das nuvens faz com que as cargas nelas presentes se separem em positivas em cima e negativas em baixo. Quando duas nuvens carregadas de diferentes espécies de eletricidade se aproximam produz-se uma forte descarga elétrica, dando origem a um clarão: o relâmpago. Quando a descarga ocorre entre as nuvens e a terra o efeito é o raio. É bom lembrar que os raios saem da terra e ‘‘encontram’’ as nuvens.
Oxigênio com enxofre Este fenômeno natural frequentemente causa incêndios. Quando os raios atingem uma árvore, por exemplo, a altíssima corrente elétrica provoca a vaporização instantânea da água contida nos poros de madeira e a consequente expansão do volume gasoso provoca a ruptura do tronco. A árvore seca e há perigo de fogo.
A professora-doutora Sônia Gimenez, do departamento de Química da Universidade Estadual de Londrina (UEL), orientadora do trabalho, explica que pelo fato de ser uma descarga elétrica, o raio provoca reações que muitas vezes podem aumentar a concentração de alguns compostos na atmosfera, desse modo, gerando contaminantes. ‘‘No entanto, quando o raio acelera reações com compostos produzidos ou sintetizados pelo homem podemos dizer que os mesmos causam poluição’’, explica.
Segundo Sônia Gimenez, os raios podem contaminar a atmosfera quando provocam incêndios florestais, por exemplo, e desse modo contribuem para o aumento da concentração de dióxido de carbono no ambiente, possibilitando a formação ácido carbônico, o qual acidula levemente a chuva.
Durante as tempestades, principalmente próximo às regiões de grande atividade industrial, a reação de oxigênio com enxofre (produzido pela queima de combustíveis fósseis e carvão mineral), pode ser acelerada pela presença de um raio. ‘‘Desse modo, existe o aumento da produção de dióxido e trióxido de enxofre, que também promovem a acidez da chuva e provocam muitos prejuízos para o solo, as plantas, a água dos rios e lagos e corrosão de ferros e outros materiais usados nas construções’’, afirma.
Nesses casos, diz Sônia Gimenez, verifica-se a poluição indireta, pois inicialmente existe o ser humano atuando para que, na sequência, os raios atuem como catalisadores de determinados processos. ‘‘O contaminante passa a ser um poluente, uma vez que está em concentração e local inadequados provocando reações adversas’’, diz.
A professora explica que muitas vezes o termo poluição é confundido com contaminação. A primeira ocorre quando um excesso de substâncias geradas pela atividade humana está presente em locais inadequados do ambiente. Já a contaminação ocorre a partir da alteração da concentração normal de íons e compostos gerados por fenômenos naturais em determinados ambientes. ‘‘Mas há controvérsias sobre as definições’’, adianta.
Apesar de muitas vezes o homem ser o vilão na poluição do ambiente, a professora explica que o ar pode ser contaminado mesmo sem a interferência humana. ‘‘O homem gera poluição, mas os raios contaminam e, indiretamente, contribuem para a poluição. O dióxido de carbono, por exemplo, contamina sem que haja ação do homem’’, afirma, constatando que o efeito gerado pelos raios podem contaminar e poluir a atmosfera.

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