Nem tudo são boas notícias para a economia do Brasil neste ano. O bom momento do País, com um crescimento do PIB estimado em 4,5% até o ano de 2014, também traz alguns reflexos preocupantes. Não é de hoje que diversas pesquisas apontam que o nosso capital humano disponível é insuficiente para acompanhar o ritmo da aceleração econômica, causando um déficit de mão de obra qualificada em diversos setores, especialmente naqueles superaquecidos pela economia.
De acordo com estimativas divulgadas pela Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom) o ano de 2011 terá um rombo de quase 92 mil profissionais na área de Tecnologia de Informação, com a demanda da indústria superando a capacidade de novos profissionais formados. Em contrapartida, a consultoria IDC divulgou que o mercado brasileiro em TI terá um crescimento de 13% no ano, atraindo a cifra de US$ 39 bilhões em investimentos. Fazendo as contas, a demanda da indústria só tende a aumentar, e o surgimento de novos profissionais é insuficiente para o número vagas.
''Eu já sinto uma grande dificuldade em contratar'', declara o empresário Frank Hisatomi, diretor da empresa londrinense HLF, que trabalha com TI. ''Mesmo com a cidade de Londrina possuindo diversos cursos voltados para a área, os estudantes se formam sem a experiência necessária, e os melhores completam o curso e vão para São Paulo ou outro grande centro'', analisa ele, que diz ter esse problema desde 2009, quando abriu a empresa. ''Uma boa alternativa é recrutar estagiários nesses cursos, para formá-los dentro da minha empresa e depois contratar. Mas até bons estagiários estão em falta'', declara.
O levantamento feito pela Brasscom assume que o temível ''apagão de TI'' que atinge o país passa por diversos segmentos da Tecnologia da Informação, tendo como principais protagonistas os profissionais desenvolvedores, programadores, gerentes e diretores que atuam na área.
Formação x mercado
''Eu acredito que a escassez dessas funções no mercado está, em parte, ligada ao fato de que as empresas sempre buscam contratar uma mão de obra mais qualificada e não quem acabou de completar o curso. Por isso mesmo o estágio é extremamente importante para nossa profissão'', opina o programador Luís Gustavo Verri Zacheu, que trabalha no setor de TI das empresas Muffato. ''Por outro lado, o curso também é muito difícil e a desistência é alta. Para escolher ser programador a pessoa tem que gostar do que faz e ter prazer no resultado'', avisa Zacheu. A alerta dele expõe uma tendência preocupante: pesquisas divulgadas pela revista Valor Econômico indicam que, de mais de 580 mil universitários que ingressam anualmente em cursos de tecnologia no país, apenas 85 mil chegam a se formar.
O programador Luciano Brito, gerente de TI no Instituto Gênesis, em Londrina, concorda que o problema passa pela formação do profissional. ''A faculdade dá a base lógica para a programação, mas a maior dificuldade é que ela apenas fundamenta uma visão superficial da profissão, e não se aprofunda em nenhuma linguagem específica'', esclarece Brito, admitindo ser necessário, para entrar no mercado de trabalho, buscar conhecimento em estágios e cursos de tecnologia. ''O meu curso de Engenharia da Computação foi importante, mas eram nas minhas horas vagas e no estágio eu aprendi coisas essenciais para minha capacitação. Eu acredito que seja preciso alinhar melhor o que a faculdade ensina e as expectativas do mercado'', complementa.
Fazer a formação de profissionais acompanhar o ritmo da economia galopante é mesmo um sério problema para o Governo; segundo dados da Brasscom, enquanto entre 2003 e 2005 havia mais especialistas em tecnologia do que oportunidades no mercado, em 2010 a falta de profissionais teve como reflexo 71,4 mil vagas não-preenchidas. Mantendo-se o cenário atual, a entidade acredita que o déficit de trabalhadores no segmento poderá chegar a 200 mil em 2013.

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