A grande vantagem da genética
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sexta-feira, 27 de dezembro de 1996
Iara Lessa 
Em um futuro próximo, graças à Genética, seremos todos belos, inteligentes e fortes? Para a médica Carmen Silva, professora do Departamento de Genética da Unicamp e responsável pelo Laboratório de Genética da Universidade, a resposta é não. Fala-se muito em eugenia, mas historicamente essa teoria já foi rechaçada. Essa não é a realidade hoje e não acredito que os estudos em Genética caminhem para esse campo, insiste a professora.
Criada pelo antropometrista inglês Sir Francis Galton, a eugenia é o estudo dos meios de melhorar geneticamente o ser humano. Foi introduzida nos meios científicos em 1883 através do livro Investigações sobre a capacidade humana. Seu criador acreditava que era preciso incentivar a reprodução dos superdotados (iniciativa conhecida como eugenia positiva) e impedir a reprodução dos menos capazes e portadores de doenças e defeitos (ou eugenia negativa). A teoria ganhou adeptos famosos. Neste século o maior incentivador da eugenia foi ninguém menos que Adolf Hitler, perseguidor do sonho de uma sociedade composta de arianos. Graças ao ditador, a teoria ganhou fama de racista e perdeu sua força.
Embora admita que as terapias de manipulação genética possam ser usadas para esse fim, Carmen Silva acha que os eugenistas estão perdendo seu tempo. A grande vantagem da genética é permitir a previsão de algumas possíveis doenças que o feto pode apresentar. Através de amostras de celulas fetais é possível prever anomalias como hidrocefalia e outras tão graves quanto. Se o médico souber disso com antecedência pode realizar o tratamento adequado e se preparar para agir imediatamente na hora do parto. O mesmo acontece em relação aos pais. Se é possível prever a Síndrome de Down, os pais podem se preparar para a chegada do filho de forma melhor, sem o choque da notícia depois do parto.
Seleção natural Outro aspecto rebatido pela geneticista diz respeito à falta de informação dos eugenistas. Prega-se a eugenia como forma de prevenir graves doenças hereditárias. Pesquisas mostram que cerca de 99% do fetos mal-formados não resistem e sofrem aborto espontâneo. Onde pregam eugenia, na verdade ocorre a seleção natural, acredita Carmen Silva.
Outro furo, e talvez o mais crucial contra a teoria de Galton, diz respeito às doenças que dependem de gene recessivo. Eu costumo dizer que em vez de nos transformamos em belos, inteligentes e fortes, as terapias genéticas vão é complicar um pouco esse quadro. Muitas vezes a pessoa é apenas portadora do gene recessivo e seus descendentes podem, e na maioria das vezes é isso que acontece, ser sadios também. Apenas uma pequena parcela ter algum comprometimento. As manipulações genéticas vão consertar aquelas pessoas, mas sua característica genética será mantida e posteriormemte herdada por outro membro da família. Não haverá eliminação genética., explica a médica
O mesmo caso pode ser aplicado quanto às doenças determinadas por genes recessivos situados no cromossomo X. São doenças que só afetam pessoas do sexo masculino (como hemofilia, por exemplo). Essas pessoas podem vir a ter filhas normais, mas elas podem ser portadoras dos genes da doença e poderão transmití-los mais tarde. É preciso entender que a ciência muitas vezes trabalha com apectos estranhos, que algumas vezes se chocam com nossa moral e princípios. Mas não há motivos para alardes. O ser humano está longe de ser Deus.


