Andy Goldberg
Deutsche Presse,
De São Francisco
Depois de revolucionar o mundo dos negócios, diversões e a vida diária com a tecnologia, os empresários da área cibernética tentam fazer o mesmo no mundo da caridade
O homem mais rico do mundo se transformou no maior filantropo do planeta depois que Bill Gates e sua mulher Melinda anunciaram a doação de mais de US$ 6 bilhões para a Fundação Gates, instituição beneficente voltada para a luta contra doenças.
A doação eleva a US$ 17,1 bilhões o total investido por Bill e Melinda Gates em sua fundação, superando a Fundação Packard, que até agora era o gigante da benemerência.
A doação, sem dúvida a mais alta já feita, mostra a atual tendência no setor da filantropia. Depois de revolucionar o mundo dos negócios, diversões e a vida diária com a tecnologia que os transformou em multimilionários, os empresários da área cibernética tentam fazer o mesmo no mundo da caridade.
As fortunas feitas com a tecnologia da informática predominam atualmente no topo da lista das maiores empresas. Gates não precisa ser apresentado, com uma fortuna estimada em US$ 100 bilhões, que acumulou com sua empresa Microsoft.
Junto com a Fundação Packard, criada por um dos fundadores do colosso que é a Hewlett-Packard, superou as grandes fundações estabelecidas pelos titãs da indústria do passado, como Ford, Rockefeller e Eli Lilly - organizações que passaram quase todo o século passado acumulando suas fortunas.
Como a legislação norte-americana exige que essas fundações doem anualmente 5% de seu capital a instituições de caridade, Gates e Packard devem desembolsar a cada ano cerca de US$ 1,5 bilhão apenas para evitar problemas com as autoridades fiscais de Washington.
Também os empresários não tão ricos do Silicon Vavlley estão seguindo o lema do gigante do aço, Andrew Carnegie, que usou parte de sua fortuna para construir bibliotecas em todos os Estados Unidos: ‘‘a riqueza é responsabilidade’’.
No passado, estes milionários ‘‘high-tech’’ tinham uma reputação de ‘‘sovinas’’. Muitos estavam tão absortos em suas companhias e carreiras que nem sequer dispunham de tempo para suas famílias e muito menos para fazer o bem ao próximo. Outros milionários que encontraram a mina de ouro da computação permaneciam apegados a seu dinheiro com medo de que sua inacreditável fortuna não durasse.
Mas agora esses milionários estão descobrindo enfim a alegria de viver, a julgar por Greg Barnard, diretor de relações públicas do Conselho de Fundações, com sede em Washington. Apenas no ano passado, suas contribuições a fundações privadas aumentaram 20%.
Muitos crêem que o gesto feito há poucos meses por Bill Gates será um marco na história da caridade moderna. ‘‘Isto será lembrado como um dos momentos históricos da filantropia norte-americana, tal como fizeram em outras épocas os Carnegie ou os Rockefeller’’, comenta Kirk Hansort, professor de ética nos negócios da Universidade de Stanford. ‘‘Não somos tecno-idiotas que ignoram que o mundo existe. Somos também cidadãos do mundo’’, diz ele.
E já se percebe os efeitos dessa nova atitude. Alguns dos mais proeminentes líderes da indústria da Internet realizaram recentemente no Silicon Valley um simpósio visando a examinar as melhores formas de canalizar para boas causas a enorme riqueza e os conhecimentos da área. Eles criaram organizações para ensinar aos novos milionários o que ironicamente é uma das qualidades mais difíceis de se aprender: como viver com mais dinheiro do que se precisa realmente e como doá-lo de maneira efetiva.
‘‘Para muitos empresários de sucesso, este é um território desconhecido’’, diz Barnard. ‘‘A fortuna surgiu tão rapidamente que não tiveram tempo de se deter e pensar nos problemas da comunidade. E agora eles se perguntam: ‘‘Temos esse enorme poder. Como conseguiremos mudar as coisas?’’
Um método cada vez mais popular para os fundadores de empresas novas em ascenção é transferir uma parte de suas ações a fundações. Caso as empresas sejam bem sucedidas, essas fundações disporiam de uma fortuna em ações.
Um exemplo disso é a casa de leilões pela Internet eBay, que pôs de lado um pequeno pacote de ações para instituições de caridade antes de lançar-se na bolsa e agora tem um fundo de mais de US$ 50 milhões. Jeff Kroll, um dos fundadores de ebay, é hoje um conhecido filantropo do Silicon Valley. Apesar de possuir uma fortuna de US$ 4 bilhões, Kroll só agora comprou um carro novo e continua dividindo uma casa com outros cinco amigos
Com seu dinheiro, Kroll interligou na Internet centenas de aldeias isoladas do mundo. Isto não só permite a elas acesso à supervia da informação como também possibilita que consigam vender seus produtos diretamente a clientes ocidentais. Estes são projetos típicos da nova forma de caridade, que, por sua semelhança e seus laços com o mundo das altas finanças, são chamados de empresas de filantropia.
‘‘Muitos dos homens de negócios de Silicon Valley querem ver os benefícios de seus investimentos’’, diz Carol Welsh-Gray, diretora do centro dos empresários filantropos. ‘‘Eles se vêem a si mesmos como investidores. Querem ver os resultados. Querem saber sobre a pessoa cuja vida mudaram’’.

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