100 ANOS DE ASPIRINA
Roberto Barros de Carvalho
Ciência Hoje
A história da aspirina pode ser traçada a partir do antigo Egito, onde se combatiam inflamações com um extrato obtido da casca do salgueiro. Mas as investigações que redundariam no síntese do ácido acetilsalicílico lançado comercialmente pela empresa alemã Bayer, em 1899, com o nome de aspirina tiveram início no século 17 com o médico inglês Thomas Sydenham (1624 1689), considerado um dos fundadores da moderna medicina clínica e da epidemiologia.
Impressionado com as propriedades medicinais da casca da Cinchona (gênero de planta a que pertence a quina, originária do Peru e notável por suas propriedades antitérmicas), Sydenham empenhou-se em procurar novos remédios usando a casca de algumas árvores como matéria-prima. Deu especial atenção às cascas do salgueiro e do álamo, delas obtendo extratos capazes de combater a febre.
Em comunicação feita à Royal Society, de Londres, em 1763 o Reverendo Edmund Stone sugeria, provavelmente sem conhecer o trabalho de Sydenham, o uso da casca do salgueiro branco (Salix alba) para tratar doenças em que o paciente apresentava febre alta e calafrios. Para explicar seus achados, o reverendo usava um raciocínio curioso: já que o salgueiro crescia em áreas úmidas e pantanosas, onde abundam sobretudo as febres agudas, ele devia ter propriedades curativas adequadas àquelas condições.
Em 1826 os químicos italianos Brugnatelli e Fontana anunciaram que o princípio ativo presente na casca do salgueiro era um composto chamado salicina, isolado pela primeira vez em sua forma pura em 1829 pelo francês Henri Leroux, que também demonstrou suas virtudes antipiréticas. Mais tarde, na década de 1870, o médico escocês MacLagan começou a fazer uso clínico da salicina, tendo publicado suas observações sobre a eficácia da substâncias no tratamento de oito casos de febre reumática.
Alguns anos antes, o farmacêutico suíço Johan Pagenstecher obteve um composto conhecido como salicilaldeído a partir da destilação de flores do salgueiro. Esse resultado foi apresentando ao químico alemão Karl Lowig, que preparou o ácido saliciílico por meio do processo de oxidação em 1835. O químico italiano Raffaele Piria obteve o ácido salicílico a partir da salicina em 1838 e, em 1852, Gerland o obteve por um completo processo de síntese, dispensando o uso de produtos naturais. Mas só na década de 1860 é que o químico alemão Hermannn Kolbe (1818 1884), partindo do fenol, desenvolveria um método sintético de produção comercialmente viável do composto.
O farmacêutico alemão Senator sugeriu em 1877 que o ácido salicílico, na forma do seu sal de sódio tinha atividade e era menos irritante à mucosa gástrica. Como essa sugestão foi confirmada, o salicilato de sódio acabou se transformando na droga preferida para tratar a doença reumática, sendo mais tarde usado também como antipirético e no tratamento da gota. Mas, embora menos irritante que a salicina, o salicilato de sódio ainda irritava o estômago, além de ter um gosto bastante desagradável.
O enorme sucesso alcançado por essa droga levou o químico alemão Felix Hoffmann a aperfeiçoá-la, produzindo o ácido acetilsalicílico. Hoffmann, então funcionário da Bayer, obteve o composto com base no trabalho que o químico francês Charles F. Gerhardt (1816 1856) havia feito em 1853 e tinha caído no esquecimento. Após a demonstração de seu efeito antiinflamatório, o farmacologista alemão Heinrich Dreser (1860 1924) introduziu-o maciçamente na medicina em 1899. O nome aspirina, através do qual a substância ficou conhecida, não é fruto da imaginação, tampouco uma arbitrariedade: ele deriva do fato de que o ácido salicílico, obtido originalmente da planta Spiraea ulmaria (=Filipendula ulmaria), era conhecido no início como acidum spiricum.
A aspirina começou a ser usada para substituir o salicilato de sódio, especialmente no tratamento da doença reumática, mas não demorou para que suas propriedades analgésicas fossem reconhecidas. Seu uso mais frequente passou a ser feito para aliviar a dor, particularmente as dores musculares e a dor de cabeça, e no tratamento de várias formas de artrite. Na Alemanha e em alguns outros países, aspirina ainda é uma marca registrada; mas em outros países, como Inglaterra, França e EUA, é um nome genérico, podendo ser usado por qualquer um.Medicamento lançado pela Bayer em 1899 está entre os mais utilizados no mundo
como analgésico e antiinflamatório
Paulo WolfgangA embalagem moderna da Aspirina: ácido acetilsalicílico é bom para o coração mas pode acentuar problemas gástricosReprodução/Ciência HojeO químico alemão Felix Hoffmann aperfeiçoou o salicilato de sódio chegando ao ácido acetilsalicílicoReproduçãoReproduçãoReproduçãoReproduçãoReprodução/Ciência HojeO salgueiro-branco (à esquerda) cuja casca era usada pelos antigos para comater inflamações e a ulmária (Spirae ulmária) de onde vem o nome aspirina





