Preocupação com o meio ambiente e com a segurança no trabalho, cobrança de imposto de todo entulho que sai das obras, incentivo à consciência do mercado de que os edifícios que estão sendo construídos hoje provavelmente serão demolidos no futuro.
Esses foram alguns dos aspectos da construção civil inglesa que um grupo de dezoito construtores brasileiros foi conhecer ‘‘in loco’’ no final do ano. A delegação seguiu para a Inglaterra a convite do Governo Britânico, através de seu Ministério da Construção. A viagem contou com a participação de três engenheiros paranaenses: Rui Manabe, Alexandre Fabian e Carlos Santos, todos da Construtora Plaenge, de Londrina.
Segurança no trabalho: uma das maiores preocupações da construção civil inglesa.Uma das obras visitadas pela delegação brasileira foi a de um shopping que está sendo construído em Peterborough, há uma hora e meia de Londres. O shopping será inaugurado no próximo mês e tem aproximadamente 200 mil metros quadrados de área construída - serão 13 mil vagas de estacionamento, 12 salas de cinema e 6.000 lugares em restaurantes. No canteiro da obra, 4.500 operários trabalhando simultaneamente e um único registro de acidente de trabalho mais sério: um trabalhador fraturou a bacia.
Um dos aspectos que chamou a atenção dos profissionais brasileiros foi que todos os trabalhadores do setor da construção civil, não importa há quanto tempo exerçam a atividade, sempre que entram pela primeira vez em um novo canteiro para trabalhar, recebem um treinamento sobre procedimentos básicos de segurança no trabalho. ‘‘Depois do treinamento, realizado através de filmes e palestras de orientação, o operário assina um termo em que declara ter recebido o treinamento e que está apto a exercer as suas funções com segurança’’, comenta o engenheiro Alexandre Fabian, diretor regional da empresa no Estado do Mato Grosso.
Junto com as medidas de segurança, o Ministério da Construção da Inglaterra desenvolve também um outro importante trabalho: estimular os construtores a investirem na reciclagem do material de construção e na redução ou aproveitamento do entulho nos canteiros. ‘‘O governo cobra um imposto da construtora de todo entulho que sai da obra’’, conta Fabian. ‘‘Mas as construtoras que selecionam o lixo nos canteiros ganham incentivos fiscais e podem até mesmo ter lucro com a venda de material de construção reaproveitável - como plástico, madeira e metal - para empresas interessadas na reciclagem’’, completa.
Típico escritório de obras inglêsOs brasileiros puderam observar em uma obra na cidade de Broadfield, há uma hora de Londres, como funciona, na prática, essa coleta seletiva. ‘‘Nesta obra, a construtora usava diversos containers para o selecionar o lixo produzido e reciclava no próprio canteiro todo o entulho de argamassa, tijolos e blocos de concreto para utilizá-lo posteriormente como material de nivelamento do terreno e agregado de concreto magro’’.
Alexandre Fabian conta que o desperdício não é a única preocupação. Ele explica que a consciência ecológica na Inglaterra vai muito além do ‘‘não cortar árvores e não poluir os rios’’. ‘‘Eles se preocupam também com o
impacto que o entulho gerado em uma obra pode causar ao meio ambiente’’, diz.
Por abrigar antigas e seculares construções a demolição é muito comum na Inglaterra atual, pois a maioria dos prédios de escolas, hospitais e até mesmo casas foram construídos há muito tempo e já não suportam mais reformas para a adequação na estrutura para a implantação da tecnologia necessária a estes setores. Ou seja, derruba-se o já inadequado velho para se construir o novo e tecnologicamente moderno.
‘‘Mas para evitar uma grande produção de entulho, o governo também incentiva o aproveitamento de material das construções que estão sendo demolidas. Há incentivo, por exemplo, à britagem de concreto de demolição, aproveitando-se como brita em novos concretos de baixa resistência - calçadas, sub base de estradas etc.’’
O diretor da Plaenge conta mais: ‘‘Recentemente os ingleses inauguraram um site na Internet com uma espécie de classificados de material de demolição. Este site inclusive permite que uma construtora que vá demolir algo em breve anuncie para alguém que esteja projetando uma nova edificação. Assim, pode-se fazer o projeto já com o que virá da demolição a ser feita’’.
A cultura do reaproveitamento está de tal forma enraizada nos ingleses que o governo está incentivando os projetistas a desenvolverem a consciência de que os projetos feitos hoje provavelmente serão demolidos daqui há 100 ou 150 anos. Assim, devem pensar o projeto também de forma que a sua demolição seja ‘‘boa’’ - isto é, gere sobras que permitam ser aproveitadas.
País em que a construção civil representa 4% do PIB total e emprega 400 mil pessoas, a Inglaterra usa 6 toneladas de material de construção por ano por habitante, sendo 20% deste total para infra-estrutura e 50% para reformas e manutenção - ou seja, obras novas de edifícios são bem menos comum que no Brasil. Com a política do governo e a postura das construtoras, eles estão conseguindo que de 10 a 15% do total acima venha de material reciclado ou de demolição. ‘‘E o objetivo é dobrar esse índice até o ano 2.006’’, informa Fabian. Colaborou Jersey Gorgel

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