Célia Baroni
De Londrina
Móveis, objetos e utensílios amontoados, formando verdadeiras montanhas disformes. Para encarar o desafio das lojas de móveis usados é preciso ter alma de garimpeiro, tempo e, acima de tudo, paixão. O prazer e o preço são os atrativos que movem qualquer garimpeiro. O arquiteto e designer Guilherme Torres é um desses apaixonados.
Experiente em ‘‘desencavar’’ preciosidades de estilo ou de época, ele garante que é possível encontrar móveis bonitos e baratos entre os usados. Segundo ele, o preço pago por uma boa peça pode chegar a ser 50% de uma peça do mesmo estilo, comprada nova – já computada sua recuperação.
‘‘O mais interessante é conseguir visualizar o potencial da peça embaixo da pintura e do abandono’’, afirma. Diz e prova, mostrando em sua própria casa os resultados de seu trabalho como garimpeiro. As cadeiras que cercam a mesa de jantar de mármore, por exemplo, foram compradas a R$ 35,00.
Torres conta que ao deparar com elas, nos fundos de uma loja da cidade, ficou logo interessado. Do grupo de dez, ficou com quatro. Em estilo Art Deco, elas foram recuperadas, a madeira escura lixada e mantida ao natural. O assento recebeu estofamento branco para valorizar o design das peças.
A cadeira que fica em frente ao computador de Torres era uma cadeira de sala de espera de aeroporto. Ela recebeu uma capa branca e o pé único e originalmente fixo, foi complementado com três rodinhas para dar apoio e mobilidade. Mas não é só para ele que Torres garimpa. O prazer de procurar alternativas baratas e bonitas também é usada nos seus projetos de decoração.
‘‘Há clientes que se importam com o resultado visual e agradecem quando conseguem o efeito desejado a um preço adequado. Para quem gosta, cada achado é uma história dentro da casa a ser contada para os amigos’’, comenta. As mesmas cadeiras em estilo Art Deco, receberam uma releitura mais leve e moderna para compor com um outro ‘‘achado’’ de Torres o ambiente da sala de almoço de um cliente.
Ele afirma que cliente adorou a idéia e o preço do conjunto. Na loja de usados a mesa custou R$ 20,00. O achado foi uma mesa de resina de fibra de vidro originalmente vermelha. ‘‘Ela é a cópia de uma mesa de design, mas logo que a vi imaginei uma forma de transformá-la’’, comenta.
A mesa recebeu um tampo de madeira, aumentando o seu tamanho original e uma pintura branca especial. O conjunto ficou completo com as outras seis cadeiras de estilo Art Deco que também foram pintadas de branco e receberam estofamento escuro.
Entre as histórias de garimpo de Torres está ainda a descoberta de uma mesa antiga, com selo de antiquário que hoje está em sua casa como aparador. Amigos dele que também gostam de garimpar encontraram cadeiras da Forma, grife de móveis de São Paulo que só tem peças assinadas por designers importantes. Pagaram R$ 100,00 por quatro cadeiras e precisaram trocar apenas o couro dos assentos. Na loja, a mesma cadeira custa R$ 2 mil cada uma.
Ele alerta, no entanto, que quem garimpa não pode sair pensando em encontrar preciosidades. ‘‘Acontece, mas é raro e a pessoa pode ficar frustrada. O garimpo de peças e móveis tem de ser um prazer e a descoberta casual.’’, afirma.
Torres explica que as peças encontradas nos móveis usados costumam ter duas origens: de pessoas que não ficaram cansadas do móvel ou trocaram a decoração ou de famílias humildes que ganharam o móvel e abriram mão dele por desconhecerem seu valor.
O garimpo pode ser ainda uma ótima opção para quem quer mobiliar sua casa. ‘‘Mesmo para quem não tem este hobby, vale a pena garimpar. É possível economizar muito sem abrir mão da beleza e estilo’’, orienta. Neste caso ele afirma que o ideal é garimpar antes de sair às compras de móveis novos. Explica que, quando pronta, a decoração dificulta a escolha permitindo apenas a adequação de peças pequenas.Garimpar em lojas de móveis usados é um prazer. Além da descoberta de peças bonitas, o custo pode ser até 50% menor que o de um similar novo
Daniel Procopio/DivulgaçãoRELEITURA Nesse ambiente criado pelo arquiteto e designer Guilherme Torres, a mesa em resina e as cadeiras em estilo Art Deco foram comprados em lojas de móveis usados. No detalhe, dá para conferir como eram as peças antes da releitura

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