Os projetos arquitetônicos não estão satisfazendo os compradores. A maioria das construtoras primeiro executa para depois procurar os clientes. Uma pesquisa realizada em Curitiba, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo mostra que os projetos imobiliários não estão sincronizados com os novos hábitos de viver.
O jornalista e consultor de marketing Ricardo Botelho, de São Paulo, falou sobre esse assunto, na última quinta-feira, em Curitiba, para arquitetos, decoradores, engenheiros e corretores de imóveis. A palestra enfocou os temas: ‘‘Tudo o que você sempre quis saber sobre o mercado da habitação’’, ‘‘Como ampliar as vendas conhecendo as necessidades dos clientes’’, ‘‘Marketing de relacionamento: a chave para o sucesso’’.
Da análise dos dados da pesquisa realizada em Curitiba, os técnicos concluíram que a falta de projetos inovadores no mercado imobiliário é uma das grandes fontes de insatisfação do consumidor, 40% utiliza a área com uma finalidade diferente daquela projetada.
‘‘Para que quarto de empregada, se a família não vai ter empregada morando?’, questiona Botelho. Ele aponta outras mudanças familiares que não são levadas em conta como: mulheres, chefes da família; mães solteiras; a preocupação com o conforto, uma vez que as pessoas passam um tempo cada vez maior em locais fechados; a dupla utilização (casa/escritório e vice-versa) e a busca por questões espirituais e a maior necessidade de aproximação com a natureza e preferência por fibras naturais. Ao mesmo tempo, os desenvolvimentos tecnológicos, como o computador, o home theater, o microondas e outros que ganham destaque.
‘‘Tudo isso mudou, mas as construtoras estão, ainda, construindo para a forma: casal mais dois ou três filhos, a mulher não trabalha, tem empregada, etc. Essa é a forma conservadora, que não satisfaz mais. É preciso esquecer a média e pensar em ouvir os clientes e identificar suas necessidades para depois desenvolver projetos’’, sugere.
Ele alerta que quando se compra uma casa, procura-se a materialização de um sonho. Hoje, segundo Botelho, a maioria das vendas imobiliárias são feitas na planta. ‘‘O cliente tem de imaginar como vai ser. Imagine comprar um carro na planta... Se até para uma calça a gente precisa da ajuda do vendedor.’
Para o consultor, apesar de todo esse quadro, as habitações continuam as mesmas, baseadas no modelo burguês parisiense do século 19. As áreas ainda são classificadas em social, íntima e de serviço. As propostas de novos espaços de habitar tendem a contribuir para o esboço de uma nova cultura urbana, que deverá abranger tanto o contra-modelo que as novas estruturas familiares originam, quanto o modelo nuclear que parece dominante.
Para que o redesenho doméstico seja concretizado é necessário um esforço conjunto de arquitetos, construtores e investidores. ‘‘Os projetos devem ser elaborados de forma que ofereçam alternativas plausíveis aos modelos vigentes, mais bem adequados aos novos modelos de vida da sociedade.’ Para isso, finaliza Botelho, é preciso incentivar todos os membros da cadeia produtiva habitacional, indicando a existência de uma enorme demanda potencial.
‘‘Aos arquitetos e decoradores cabe estar atento às transformações cada vez mais intensas e profundas da sociedade, cuja moradia é chamado a projetar. Os desenhos desses novos espaços de morar são fundamentais para influenciar aqueles que têm o poder de efetivar as mudanças’’, alerta.

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