Projeto propõe habitações populares em encostas
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sábado, 03 de novembro de 2001
Da Redação 
Ao contrário do provérbio popular que vê tempos de calmaria após tempestades, a realidade é bem diferente quando se trata de ocupação de encostas. Desmoronamentos são as consequências mais prováveis, resultado da maneira irregular com que é feita a ocupação do terreno e a construção de casas.
Pensando na solução deste problema, o Agrupamento de Estudos Geotécnicos do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) vem desenvolvendo duas pesquisas paralelamente. Embora tenham focos distintos, caminham com a mesma finalidade: propiciar ambiente seguro para a implantação de habitações de interesse social em encostas.
A favor da ocupação inteligente de encostas, estuda-se a possibilidade de implantar habitações com acesso restrito a veículos, tolerando-se desníveis de até 20 metros para percurso a pé. Pesquisas avaliam uso de sistema construtivo híbrido, com embasamento de aço estrutural sobre o qual se constrói uma habitação convencional.
A primeira delas, patrocinada pela Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) e pela Caixa Econômica Federal, visa a criação de tipologias específicas de projeto e deverá estar concluída até o final deste ano. Nesta, os pesquisadores empenham-se em caracterizar um método para projetos habitacionais em encostas, ''sendo fundamental a interação entre arquitetos, engenheiros e geólogos'', afirma o chefe da Seção de Geotecnia Ambiental e Urbana do IPT e coordenador de ambos os trabalhos, o arquiteto Flavio Farah.
Ele explica que a concepção do projeto urbanístico e de edificações em morros são altamente favorecidos por análises desenvolvidas tanto por engenheiros quanto por geólogos, em que sejam caracterizados os limites toleráveis de alteração do terreno, preferencialmente sem necessidade de uso de obras de contenção. Inicialmente é feito, portanto, um trabalho apontando as capacidades e restrições dos solos.
A partir do conhecimento preciso da topografia e das qualidades dos solos presentes na área em questão, será possível prever o quanto é viável ou não a construção de habitações. ''A necessidade de certos tipos de obras, tais como estruturas de contenção de grande porte, pode tornar o projeto excessivamente caro, e portanto, inviável'', observa Farah.
Já o foco da segunda pesquisa diz respeito ao desenvolvimento de sistema construtivo híbrido, com embasamento de aço estrutural sobre o qual se constrói uma habitação convencional. Conta com o apoio da Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo. Para se evitar grandes movimentos de terra no terreno, a idéia dos pesquisadores é a colocação de diversos ''tabuleiros metálicos'' ao longo das curvas de nível dos morros, apoiando nessas estruturas habitações térreas ou sobrados.
''Existe a intenção de se construir um protótipo e estamos tentando obter o apoio de algumas empresas do setor para tornar o projeto uma realidade'', afirma o coordenador. Os ''tabuleiros'' são padronizados e montados apenas com parafusos, variando-se tão somente as fundações, de acordo com as características de cada terreno.
Farah também estuda proposições para legislação urbanística específica para habitações de interesse social em encostas, analisando a possibilidade de implantações com acesso restrito a veículos, tolerando-se desníveis de até 20 metros para percurso a pé.
Em alguns dos projetos desenvolvidos, utilizam-se casas escalonadas, atendidas por vias exclusivas para pedestres. As vagas de garagens ficam concentradas num único local. A construção de acessos para veículos e garagens próximas a cada residência exigiria grande movimentação de terra e causaria danos ambientais e riscos. Também são feitos, em computador, testes de simulação da insolação das casas, pois conforme o tipo de morro as condições podem se tornar críticas.
Segundo Farah, um dos grandes desafios propostos a arquitetos e engenheiros é conciliar urbanismo com geotecnia, e projetos de edificações com as encostas. ''Aprendemos a lidar com padrões urbanísticos destinados ao plano, e não basta simplesmente transpor uma edificação de um terreno plano para uma encosta, sem considerar as peculiaridades físicas dos morros''.


