Pneus velhos viram cimento ecológico
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sábado, 06 de setembro de 2008
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
Além de ser base para praticamente qualquer tipo de construção, o cimento agora assume outro papel: comprometimento com o meio ambiente. Pneus usados agora são ingredientes importantes de várias usinas de cimento espalhadas pelo Brasil. Em um sistema chamado de co-processamento, eles são usados tanto como combustível quanto como parte integrante da mistura utilizada na fabricação do cimento.
O co-processamento é a destruição de resíduos industriais e de passivos ambientais nos fornos de cimento. Esses materiais entram como combustível para aquecer os fornos. A técnica já é bastante popular na Europa e nos Estados Unidos e vem sendo usada no Brasil desde 1990. ''Somente nesta usina, queimamos cerca de 50 toneladas de pneus por dia. Investimos recentemente R$ 11 milhões na compra de uma nova máquina que queima os pneus com melhor qualidade. Existem apenas três dela no mundo todo, uma aqui no Brasil'', afirma o coordenador de produção da unidade de Salto de Pirapora (SP) da Votorantim Cimento, Rodrigo de Paiva Peralva.
Antes da entrada dos pneus para a queima, o combustível mais usado era o coque de petróleo, produto importado e de custo alto para a indústria. ''Com os pneus, que já substituem 13% do combustível usado na usina, conseguimos diminuir a necessidade de um derivado de petróleo e ainda ajudamos a resolver um problema ambiental'', diz Yushiro Kihara, gerente de tecnologia da Associaçõa Brasileira de Cimento Portland (ABCP).
E nem mesmo os resíduos inorgânicos, os metais que compõem o pneu são descartados no co-processamento. ''O material orgânico queima e se transforma em energia nos fornos. Já os metais são incorporados no clinquer, que é a mistura inicial do cimento feita de argila, calcário e minério de ferro. A essa mistura, colocamos os resíduos de aço - que podem vir dos pneus - e gesso. Aí está pronto o cimento'', explica Kihara.
Para ele, o co-processamento é o método mais eficiente de se eliminar o problema dos pneus inservíveis. ''Se eles são levados para um aterro é ruim porque gera passivos para o meio ambiente. Se são queimados normalmente emitem muita cinza e poluentes. Na queima de co-processamento, não existe resíduo algum, apenas água e gás carbônico. Para receber autorização para usar os pneus, as cimenteiras precisam se adequar, instalar filtros apropriados, tudo para garantir a segurança do processo'', garante.
Os pneus são trazidos até a usina de cimento por cooperativas formadas pelas indústrias de pneus. ''Por lei, as fábricas são obrigadas a destruir quatro pneus usados para cada unidade nova fabricada. É uma parceria entre cimenteiras e fábricas: eles nos cedem o material que usaremos como combustível e nós destruímos os pneus sem cobrar nada. É vantajoso para a indústria de cimento, de pneus e para o meio ambiente. Apenas nessa usina, recebemos cerca de seis ou sete carregamentos de pneus por dia'', diz Peralva.
Mas ainda há muito o que crescer nessa área. De acordo com a Reciclanip, entidade que trata da coleta e destinação de pneus no Brasil, apenas 27% dos pneus inservíveis são co-processados no Brasil, num total de 32 milhões de pneus por ano. A capacidade da indústria cimenteira é de queimar 120 milhões de pneus por ano. A legislação brasileira, através do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) regulamentou em 1999 o co-processamento de resíduos industriais e passivos ambientais.
A indústria brasileira de cimento reúne 58 unidades de produção, sendo que 32 delas estão licenciadas pelos órgãos ambientais para co-processar resíduos. Além de pneus, as cimenteiras podem queimar resíduos como borracha, solventes, tintas, óleos usados, borras de petróleo e de alumínio, solos contaminados e lodos de centrais de tratamento de esgoto.
A jornalista visitou a fábrica da Votorantim a convite da empresa.


