A valorização das fibras naturais, que nascem nas mais diferentes regiões do País, e de objetos que remetem a cores e materiais típicos da terra foram alguns dos pontos fortes da 2º Salão do Móvel Brasil, realizado em Gramado (RS), em março. A feira reuniu 173 estandes de algumas das principais indústrias do setor moveleiro e empresas de decoração do País.
Entre as várias indústrias presentes ao Salão que escolheram as fibras como material de trabalho, algumas chamaram a atenção por não se limitarem aos tradicionais junco, rattan e cana-da-índia. Uma delas foi a Amazonia Fibras Naturais, que mostrou aos lojistas, arquitetos e decoradores que visitaram o evento peças criativas feitas também em rottin, um tipo de cipó típico da floresta amazônica, e taboa.
O rottin, conhecido entre os nativos da selva como apuí, é um cipó de alta flexibilidade e resistência, que se desenvolve como parasita nas árvores. Pela dificuldade de extração, ainda é um material raro e pouco conhecido no mercado de móveis. A Amazonia foi a primeira empresa a desenvolver pesquisas com o cipó e a industrializá-lo.
Já a taboa, matéria-prima abundante em áreas alagadiças e tão comum em móveis rústicos, foi transformada em material nobre pela indústria. ‘‘Com uma matéria-prima barata, conseguimos um produto de alto padrão’’, define o empresário Manoel Queiroz.
No caso do junco (outro cipó altamente resistente) e do rottin, ele explica que são materiais fartos na selva amazônica, retirados por seringueiros em determinadas épocas do ano. ‘‘A extração destes materiais não resulta em nenhum tipo de dano à natureza, pois eles se recompõem naturalmente na mata’’, diz Queiroz. O catálogo da empresa lembra que a utilização dos cipós oferece condições ao homem nativo de conviver na mata sem destruí-la.
A Amazonia Fibras Naturais existe há 15 anos, mas passou a se destacar no mercado principalmente nos últimos quatro anos. ‘‘Nos especializamos em varanda e jardim, que são áreas hoje tão valorizadas quanto os ambientes internos’’, afirma o empresário. Já as fibras, segundo ele, são uma tendência que cresce ano a ano. ‘‘Na Europa o consumo destes móveis é muito grande, e os consumidores vêm rejeitando os móveis asiáticos, por causa do uso de mão-de-obra infantil e escrava.’’
Além dos materiais típicos brasileiros, o evento gaúcho mostrou que a indústria nacional também está acordando para a valorização dos próprios profissionais. Durante a palestra de abertura do Encontro de Arquitetura e Decoração, que aconteceu paralelamente ao Salão Móvel Brasil, o arquiteto Carlos Augusto Lyra, de Pernambuco, fez um apelo aos presentes para que incluam em seus projetos as criações do artista brasileiro. ‘‘Fazer uma coisa bonita é fácil. O desafio é criar uma nova linguagem, o inusitado’’, disse Lyra.
Não por acaso, um dos estandes que chamavam a atenção dos visitantes do salão pelo colorido e beleza dos objetos expostos era o da Cores da Terra Cerâmica e Ferro. Em meio a aves, frutos e flores típicos da fauna e flora brasileiras, além de vasos e castiçais em ferro, a artista plástica Selma Abdon Calheira explicou que a preocupação da empresa sempre foi justamente mostrar a riqueza brasileira. Nossos tucanos, bromélias, morangas e cajus são tão encantadores que os objetos produzidos pela cerâmica do interior da Bahia já participaram de várias feiras internacionais.
‘‘Sou artista plástica e trabalho há 20 anos com cerâmica. Nos últimos anos, dediquei-me a pesquisar linguagens tipicamente brasileiras’’, conta Selma. Há 12 anos ela e o marido, o também artista plástico Franz Rzehak, resolveram voltar para Ibirataia (sul da Bahia) e montar a empresa, que acabou absorvendo grande parte da mão-de-obra local, sem muita opção de sobrevivência depois da extinção da cultura do cacau na região.
A cerâmica notabilizou-se pela formação de artesãos e passou a interferir diretamente no desenvolvimento cultural e econômico da população. Na pequena Ibirataia são produzidos artesanalmente mais de 400 itens em cerâmica e ferro, que já podem ser vistos inclusive na Gift Fair, a principal feira de presentes da América Latina. Para Selma, não há segredo no sucesso dos objetos: ‘‘É tudo uma questão de oportunidade. Talvez estes artesãos jamais se revelassem, se não tivéssemos tornado isto possível. Quando se entrega as ferramentas às pessoas certas, é um deslumbramento’’.

mockup