Novo conceito valoriza a personalidade
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de março de 1997
Ligia Barroso Especial para Folha Imobiliária 
Mário CesarIndividualidadeCristina Barutta e Teba Godoy: novos núcleos familiares têm características e desejos de moradia diferenciadosTrabalho de pesquisa de duas arquitetas londrinenses constata que as atuais necessidades de moradia - espaços definidos, privacidade e conforto, são consequência direta do surgimento de novos núcleos familiares e da valorização extrema das potencialidades individuais, em espaços internos domésticos. A concepção de projetos arquitetônicos internos sob medida torna-se, assim, o traço que sustenta o novo conceito de habitação.
As profissionais Teba Godoy e Cristina Barutta vêm desenvolvendo, nestes últimos anos, estudos sobre a evolução destas necessidades para a moradia. O enfoque resultou em trabalho de tese, no curso de pós-graduação na Universidade de São Paulo (USP), realizado pela arquiteta Cristina Barutta. E em elementos de abordagem na disciplina Projeto Arquitônico-Interiores, ministrado por Teba Godoy, também docente do curso de arquitetura da Universidade Estadual de Londrina.
Estratificação A identificação de novos extratos familiares foi o ponto de partida.A moradia hoje é o reflexo direto das mudanças ocorridas no comportamento familiar, argumentam as arquitetas. O núcleo familiar tradicional está modificado. Nestas últimas duas décadas tornaram-se comuns exemplos como os de família monoparental (mãe e filho, pai e filho, ou ainda, mãe e ou pai com novo marido ou nova mulher); de casais com número cada vez menor de filhos; de pessoas adultas, separadas ou não, mas que optaram pela moradia single; das uniões homossexuais; e do crescimento, em número expressivo, de adolecentes estudantes e jovens adultos profissionais, que buscam privacidade na moradia.
Estes fatores, segundo elas, refletem diretamente no mercado imobiliário construtor, que busca, através dos projetos arquitetônicos personalizados compatibilizar e suprir, ao máximo, as necessidades apresentadas pelos novos modelos de público consumidor/comprador. As arquitetas enumeram ainda um outro fator: a moradia também como espaço aliado e integrado às atividades profissionais, de lazer e hobbies. São fatos, diz Teba Godoy, que justificam a constante busca das empresas do mercado da construção civil pelo aprimoramento, não apenas nas inovações em técnicas de sistemas construtivos, mas paralelamente, na otimização de novas possibilidades em arquitetura de interiores, como opcionais dos espaços habitacionais.
O modelo de casa-padrão, apenas como moradia, teto necessário (sala, cozinha, banheiro e dormitórios), vem sendo substituído, gradativamente, pelo planejamento personalizado de espaços que absorvam as reais necessidades do morador. A arquiteta Cristina Barutta diz ainda que um exemplo muito claro deste novo conceito habitacional pode ser observado através das manifestações e dos desejos, apresentados tanto por compradores de apartamentos (quando estes ainda estão em planta ou em início de edificação) quanto por pessoas que iniciam a construção de uma casa.
No caso dos apartamentos, como a obra enquanto engenharia (estrutura) é igual para todos, o novo morador busca, dentro de suas metragens correspondentes, alternativas que tornem os espaços individuais, pessoais. Assim, quando é posível, ele elimina um ou outro dormitório e transforma-os em escritório, sala de tevê ou em uma sala de estar mais ampla. Utiliza a dependência de empregada, por exemplo, em um local para instalar equipamentos de ginástica ou apetrechos de seu hobbie, fazem de suas varandas e sacadas pequenas hortas, jardins e até pomares. Isto porque é importante que a casa seja um espaço que valorize as potencialidades individuais; que vá além da finalidade secular, que é a de abrigar. Na verdade, o novo conceito é expressado pela busca de um local que reflita também a personalidade e o modo de vida de seus habitantes.
Flexibilidade Os novos núcleos familiares - com características de moradia diferenciadas - e a valorização dos desejos e potencialidades individuais fez crescer também a especialização, para os projetos arquitetônicos, nas empresas do setor de construção. Hoje, algumas construtoras já oferecem opções (em número de salas, dormitórios e até mesmo na posição de alguns cômodos) para a planta interna dos apartamentos. As plantas flexíveis são um exemplo. A escolha do material de acabamento para revestimento interno (mármore, madeira, cor de paredes, louças e metais) também é possível. E, em alguns casos, incorporadoras de grandes edificações já mantém, em seu quadro funcional, profissionais de arquitetura, para atender, individualmente, seus clientes.
Como a moradia é também um grande investimento econômico, e é o cliente a fonte de informação e recursos para a realização de bons negócios, o mercado imobiliário hoje está atento a todas estas transformações sociais. E investe em planejamento, qualidade de serviços e em tecnologia. Este tripé ajuda na construção, na definição de modernidade, para os desejados espaços domésticos personalizados, finaliza a arquiteta Teba Godoy.


