O químico francês Lavoisier afirmou com a célebre frase que ''na natureza, nada se cria, tudo se transforma''. O segmento da construção civil parece que soube aproveitar bem essa idéia científica e moldá-la para a edificação de obras que utilizam materiais de demolição. Pisos, portas, janelas, tijolos e outros materiais já usados estão sendo restaurados e reutilizados em projetos residenciais e comerciais.
E, ao contrário do que se possa pensar, esses materiais dão um toque especial à obra, tornando-a exclusiva e muitas vezes fazem toda a diferença. O processo, conforme salientam os arquitetos, é mais ecológico, mais trabalhoso e nem sempre mais barato. Afinal, os produtos são ''garimpados'', precisam ser adequados e geralmente são restaurados.
''Para usar um material de demolição é preciso ter conhecimento para não deixar o ambiente pesado'', afirma o arquiteto Marco Aurélio Paoliello, falando com a autoridade de quem sabe trabalhar com o diferente. O profissional projetou o recém-inaugurado restaurante Serafinni, mesclando traços modernos com detalhes rústicos. ''Gosto de usar materiais de demolição nas obras, mas tudo depende do conceito do projeto e da proposta do cliente''.
Na entrada do espaço, uma porta de imbuia com um trabalho singular de carpintaria indica que o passado se encaixa perfeitamente ao presente. A peça veio de Curitiba, onde fez parte de uma casa durante anos. O piso que cobre boa parte do ambiente é intercalado em ladrilho hidráulico - piso de concreto que tem uma camada com desenho de tintura colorida - com piso de madeira peroba-rosa. Os materiais vieram de uma casa que foi demolida no interior de São Paulo.
''Os materiais vieram dos mais variados lugares. Existem lojas de demolição na cidade onde podem ser encontradas algumas peças, mas tivemos que vasculhar e comprar até de particular. Isso encarece um pouco a obra'', destaca Paoliello. O restante das outras esquadrias foram compradas em Londrina: uma porta é de cedro e as janelas são de peroba. As paredes do ambiente são de tijolos de demolição, sendo uma parte deles recuperadas com a reforma do local.
O arquiteto aponta que para que os materiais tenham condições de ser reutilizados é preciso um trabalho de demolição adequado.''É interessante também que as pessoas que têm casas para demolir saibam da possibilidade de reutilizar o material'', explicou.
Em vários detalhes do projeto do restaurante, o moderno se mistura com as peças restauradas: parte dos vinhos, por exemplo, está disposta em um cocho de boi. Outro tanto está armazenado na adega climatizada. O balcão mesclou granito nas bancada e detalhes em peroba e piso novo na parte da sustentação. Para incrementar o espaço foram adquiridas peças de decoração em antiquários de São Paulo.

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