Em geral, os muros sempre foram vistos com um certo ‘‘desdém’’, erguidos unicamente para cumprir a função de demarcar e proteger o imóvel, valendo-se de um padrão formal e de materiais mais baratos e menos nobres.
Mas não é bem assim. O muro não é apenas um instrumento para garantir a segurança ou preservar a intimidade dos moradores, e pode ser comparado à roupa que veste o modelo em um desfile de moda. A criatividade na composição do seu visual pode deixar a casa mais bonita mas também pode fazê-la feia.
O movimento e texturas são recursos importantíssimos na hora de brincar de esconder e mostrar como em um jogo de cena. No projeto, a escolha do muro está a decisão entre cobrir ou vestir a sua casa.
Os muros sempre fizeram parte da cultura brasileira, porém vieram mais para delimitar a área da propriedade do que para ‘‘proteger’’. Nas fazendas antigas, serviam ainda para separar visualmente a área residencial da área agrícola. Não raramente havia mais de um e sempre concêntricos, o último separando a residência dos senhores das construções onde moravam os escravos.
O conceito de separação foi levado para os centros urbanos onde os muros assumiram características diferenciadas de acordo com o nível econômico dos moradores. Nas vilas e bairros onde moravam trabalhadores, eles tinham a altura de pouco mais de um metro. O suficiente para delimitar o terreno, mas baixos para permitir as conversas entre vizinhos e ter uma boa visão da rua e de quem passava.
Fica clara aqui a influência portuguesa na nossa arquitetura. As casas brasileiras nasceram voltadas para a rua, com janelas e varandas de olho no movimento. Não se justificavam muros altos com tanto a ser apreciado. Nas casas mais abastadas os muros laterais também não eram altos; mas por outros motivos. Os terrenos eram grandes e as casas ficavam relativamente longe uma das outras, o que dava a privacidade necessária aos moradores.
A mesma influência está no uso de grades em ferro na parte da frente das casas. Eles só começaram a ficar altos e ‘‘inexpugnáveis’’ na década de 70, quando as cidades modernas começaram a surgir. A insegurança diante da chegada dos tempos modernos e do novo sistema produtivo, aliada ao crescimento da violência contra o patrimônio levantaram os muros protegendo moradores das agressões externas.
As ‘‘muralhas’’ marcaram o conceito construtivo de uma época que só começou a mudar nos anos 80. Hoje, ao andar pelas ruas de qualquer cidade é possível ver que, no ecletismo dos nossos dias, ainda prevalecem as muralhas e a insegurança. Só que com muito mais charme e graça.

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