Muito além da política da boa vizinhança
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domingo, 27 de dezembro de 2015
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Nos dias de hoje a indiferença e o individualismo parecem prevalecer, mas felizmente ainda há bons exemplos para serem seguidos, principalmente em referência ao relacionamento entre vizinhos. No último dia 23 de dezembro, comemorou-se o Dia Nacional do Vizinho e nada mais propício para estimular essa reflexão.
Morar em comunidade, com pessoas de faixa etária e personalidades diferentes, definitivamente não é fácil, mas é consenso geral que a convivência se torna muito melhor quando a gentileza e a solidariedade caminham juntas e acabam ajudando a superar os conflitos com bom senso e tranquilidade. Vale lembrar que uma boa convivência pode começar com uma simples gentileza.
No Condomínio Centro Comercial Londrina, onde moram aproximadamente 600 pessoas, o 16º andar, do Bloco B, é um exemplo concreto da harmonia entre vizinhos. Ao adentrar no corredor, o clima aconchegante de uma casa de bairro parece predominar. Plantinhas no corredor e enfeites natalinos adornam cada uma das portas.
Moradora há 16 anos do condomínio, a representante comercial aposentada Diva Mansano Buranello, 63 anos, sabe de cor o nome de todos os vizinhos do seu andar e valoriza a boa convivência entre eles. Ela integra há cinco anos um grupo de reflexão bíblica organizado pelos moradores do seu bloco e afirma que isso também ajuda a desenvolver laços de amizade entre eles. "Sou muito prestativa, gosto de ajudar os outros, mas não gosto de fofocas e evito ficar 'de conversinha' no corredor, e muitos aqui pensam da mesma forma", comenta.
Um dos seus vizinhos, o trabalhador rural aposentado Antônio Munhoz, 98 anos, que mora sozinho, recebe cuidados especiais dela e do seu marido, o policial civil aposentado José Mário Crevelaro, 68 anos. "Todos os dias levamos café para ele e sempre estamos atentos sobre a sua saúde. Se não ouço a sua televisão ligada de manhã, já fico preocupada, e vou verificar se está tudo bem", diz. Com um sorriso largo no rosto, seu Antônio sempre agradece o carinho que recebe diariamente. Uma outra vizinha, uma costureira que mora sozinha, também é foco da sua atenção. "Sempre converso com ela para ver se está tudo bem para que ela não se sinta tão carente. É como uma irmã para mim", acrescenta.
Acostumada com essa rotina repleta de gentileza e solidariedade, ela estranha quando vê o comportamento dos vizinhos da casa de bairro em que seu irmão mora. "Os vizinhos mal se cumprimentam e acho isso muito estranho. Considero importante ser útil aos outros e buscar ter um bom relacionamento com as pessoas. A gente não sabe o dia de amanhã", destaca Diva, que lembra com saudades de algumas vezes que o seu condomínio chegou a realizar confraternizações no final do ano com todos os moradores. "Era muito bom e podia voltar a ter de novo", almeja.
No Condomínio Angélica, a costureira aposentada Candinha Valadão, 79 anos, tem vários vizinhos que considera como amigos e diz que sempre tem alguém disponível para ajudá-la: seja para pedir um pouco de açúcar emprestado, colocar um quadro na parede ou até mesmo regar as suas plantas enquanto viaja. "É muito bom contar com essas pessoas e me sinto mais segura dessa forma. Sou muito sociável e acho que isso também me ajuda a fazer amizade com as pessoas. Quem mora em prédio, tem de aprender a viver em comunidade e faz diferença ter esse bom relacionamento", garante Candinha, que mora no condomínio há 32 anos, sendo os últimos 15 anos sozinha.
No Condomínio Caravelas, o síndico Onivaldo Faustino Pincelli também ressalta que o clima que prevalece no local é o de amizade. "Tem pessoas que moram aqui há quase 40 anos e a maioria tem um ótimo relacionamento. É comum as pessoas ajudarem umas às outras, principalmente quando viajam, cuidando das plantas e dos animais de estimação", exemplifica. No prédio é também tradição realizar a Novena de Natal no final do ano e o salão de festas é cedido para os moradores. "É muito bom morar em um lugar que predomina esse tipo de comportamento. Na minha gestão, também procuro valorizar a solidariedade e acredito que, quando dividimos os nossos problemas, percebemos que eles são menores do que pensamos. Isso também pode fazer a diferença", complementa Pincelli.
O Dia do Vizinho é comemorado anualmente em 23 de dezembro. Existem algumas divergências sobre a data correta para comemorar o Dia do Vizinho no Brasil. A maioria dos estados brasileiros comemoram o dia 23 de dezembro, no entanto, não existe uma justificativa certa para a escolha desta data.
Em outros lugares do País, os vizinhos comemoram o seu dia em 20 de agosto, em homenagem à figura da poetisa Cora Coralina (1889-1985). Natural de Goiás, ela teve os seus vizinhos como tema central de suas poesias. Por causa de seu amor pela vizinhança, o dia 20 de agosto (data de seu nascimento) se transformou em Dia do Vizinho em Goiás.
É dela a seguinte frase, que resume bem essa relação entre "companheiros de porta": "Vizinho é mais que parente, pois é o primeiro a saber das coisas que acontecem na vida da gente".


