Móveis expressam identidade brasileira
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de maio de 1999
Elisa Marilia Carneiro 
A diversidade cultural brasileira está entranhada de forma inesperada e com uma coerência surpreendente na exposição Maurício Azeredo - 25 anos de design o no livro Maurício Azeredo: A construção da identidade brasileira no mobiliário, no Museu de Arte de São Paulo (Masp), até o dia 30 de maio.
Um dos principais méritos de Maurício Azeredo foi ter sido o primeiro designer de móveis a explorar a incrível diversidade de cores, texturas e características físicas de um sem-número de madeiras brasileiras, reconhece Alélia Borges, curadora da exposição e autora do livro.
A criaçãoMesa Tokio, uma das peças de Azeredo de mais difícil execuçãoCarioca, criado em São Paulo, e ex-professor de Arquitetura da Universidade de Brasília, Maurício Azeredo vive há mais de dez anos em Pirenópolis, pequena cidade histórica de Goiás, tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional e famosa pelas Festas do Divino.
Azeredo foi buscar justamente no reconhecimento de suas raízes o caminho para o seu trabalho. A cor, o contraste, a vibração são parte da nossa cultura, principalmente a chamada popular. E por trás dessa linguagem está o humor, a irreverência, algo vivo, em contraposição ao taciturno. Basta sentar à beira-mar e, observando a luz do sol, a cor do mar, a mata que o tangencia, os pássaros que a habitam, ver passar uma traineira e seu grafismo multicolorido, como multicolorido é o ambiente em que ela está. É um pouco disso que procuro dizer em meu trabalho, explica.
Todo o projeto de Maurício se baseia na diversidade das cores das madeiras, que são agrupadas ora por contrastes, ora por similaridades. Conforme a série de móveis, o traço por vezes é solto; noutras, segue um padrão rígido de composição com um resultado que lembra o contrutivismo.
O desenho esquiva-se da sedução da moda. O móvel se pretende duradouro, sólido, capaz de atravessar incólume muitas gerações, não só no aspecto técnico como também no aspecto formal.
Mesa Ubá: premiada pelo Museu da Casa Brasileira para DesignO projeto de Maurício contrapõe-se aos conceitos do racionalismo internacional, que dominaram a cena do design brasileiro desde a década de 60, com uma forte influência de professores alemães. Aquele que não reconhece a própria identidade fica como o cachorro que cai do caminhão no dia da mudança. Ele não sabe de onde veio, onde está, para onde vai, e muito menos por quê. Eu me sentiria totalmente desorientado se não soubesse o cheiro do meu tempero, o perfume da minha mata, a luz do meu céu, para saber em que geografia eu me situo.
O ato de projetar móveis começa para Maurício na prancheta, desenhando. Quanto à tipologia, faz qualquer tipo de peça para uso em casas, escritórios, lojas, centros culturais, etc, que possa ser executada em madeira maciça.
Uma única restrição é feita quanto aos móveis embutidos - que renegam sua própria definição e não têm qualquer mobilidade. Fora isso, atende encomendas especiais, e faz de tudo: mesas, cômodas, aparadores, criados-mudos, estantes, além de pequenos objetos como bandejas e jogos. Tem mais bancos do que cadeiras, recupera antigas tipologias de móveis que tinham um desenho parado no tempo, como o cabideiro e a escrivaninha. Tem pilhas de estudo sobre o porta-guarda-chuvas e já pesquisou muito a arca.
Lidar com a matéria-prima nobre permite a Maurício perseguir a perenidade do objeto. É um móvel sólido, em todos os sentidos do termo, mais pesado do que leve, até pelo uso da madeira maciça. Tem um caráter monumental, que vai bem em amplos espaços públicos e institucionais, como no Palácio da Alvorada, que tem um conjunto de escritório na biblioteca particular.
Cada móvel que sai da marcenaria é assinado e datado, e gera uma ficha interna com as características da peça e o destino. Essa postura só é possível pela baixa quantidade de produção. A média mensal é de oito a dez peças, com dez marceneiros.
Todos os móveis são batizados com nomes que evocam a cultura brasileira, e que acabam sendo uma atração à parte, deliciosamente nos relembrando de nossas raízes e da imensa variedade de nossa cultura. Eles podem variar de elementos das culinárias regionais, a nomes afro-brasileiros, de música a personagens, e frequentemente são retirados da lingua tupi.
A pressa inexiste na produção. O prazo de entrega de um móvel a partir da encomenda é de 90 dias. A qualidade da produção, o rigor técnico, o esmero são preocupações obsessivas. A precisão é fundamental no caso de móveis feitos por encaixes.
A qualidade de produção começa com o tratamento da madeira em estufa de média temperatura e condensação. Inclui lixar a madeira com oito grãos diferentes de lixa. E termina com o tratamento nas duas últimas demãos, com selador químico à base de nitrocelulose, palha de aço e cera comum com silicone.
O uso de diversas madeiras num mesmo objeto exige uma tecnologia nova e uma atenção extrema. O trabalho residual de expansão e contração na madeira é inevitável, a não ser que ela seja laqueada. Trabalhar com essa variável é especialmente delicado quando se usam simultaneamente diferentes tipos de madeira, que têm reações diferentes ao absorver e perder água.
Num tempo de objetos descartáveis, é reconfortante ver sua busca de fazer móveis permanentes, significativos. Objetos que valorizam a nossa história, tradição e cultura, e acrescentam uma nova dimensão à identidade brasileira no mercado global.


