Mestre na arte de buscar soluções que atendessem a uma dupla exigência do espírito humano: a de servir-se sem cerimônia da oferta da natureza e também a de dar à natureza uma visão humana da beleza. Assim pode ser definido o trabalho do arquiteto e designer baiano José Zanine Caldas, morto em 20 de dezembro, em Vitória (ES), aos 82 anos.
Nunca cursou senão o primário, mas ainda assim tinha reconhecido seu notório saber nos quatro cantos do planeta. Houve uma época em que grupos corporativos não queriam que Zanine Caldas construísse, porque não tinha diploma. É por isso que, na entrada de sua exposição na mais recente Bienal de Arquitetura, em 1999, havia dois diplomas expostos: um de arquiteto honorário conferido pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil (em outubro de 1991) e outro pela Academie d’Architecture, da França (em junho de 1990).
Quando falava, Zanine Caldas tinha um jeito especial, quase épico, de contar o mundo. ‘‘Vi templos sensíveis, aldeias serenas, savanas ao pôr-do-sol numa África recém-saída do colonialismo. Fui testemunha de um grande crime. Vi os povos passarem da auto-suficiência tribal para a miséria e a fome das favelas urbanas. E artesãos milenares começarem a falsificar o próprio talento para atender a turistas ignorantes sob o incentivo dos próprios governos’’, disse, certa vez.
Pessoa afável e de bom papo, Zanine – ainda durante a Bienal de Arquitetura – veio a São Paulo e apresentou pessoalmente ao público sua exposição no primeiro pavimento (composta de suas cadeiras dos anos 50, maquetes de casas e projetos rurais e móveis).
Seu mobiliário tornou-se clássico. ‘‘Sua arquitetura, a meu ver, não quer aparecer, quer sumir na natureza’’, diz o marchand e historiador João Pedrosa, curador da sua exposição na bienal e também um grande colecionador de objetos de Zanine. ‘‘É uma arte eminentemente brasileira.’’
Mesas e cadeiras brutalistas (feitas em troncos de madeira) eram sua diversão predileta. Durante um período em que lecionou na Universidade de Brasília, ele propôs aos alunos um exercício completamente heterodoxo: pediu que examinassem uma peça tradicional de Goiás (um banco construído sem prego nem cola), e que a desmontassem e redesenhassem de forma criativa e individual.
O assento daquele banco típico goiano era de couro cru. O detalhe é que o couro, ao ser molhado, estica e prende apenas sendo amarrado com tiras. Os encaixes eram cravilhas de madeiras e a montagem requeria instrumentos básicos, como martelo, serrote e formão. ‘‘Quando conseguimos fazer as coisas com menos instrumentos, a mão se torna o instrumento mais importante’’, disse Zanine. ‘‘Aí, o que funciona é a cabeça, e quando a cabeça funciona há sempre uma evolução.’’

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