Célia Baroni
De Londrina
O jardim japonês é a arte do paisagismo levado ao extremo, transformada em poesia visual. O alfabeto dessa linguagem milenar está nas pedras, espelhos d’água e plantas. Nenhuma palavra é colocada ao acaso. Seja reproduzindo paisagens naturais em miniatura – lagos, montanhas e ilhas – ou surrealistas, cada jardim japonês têm um recado a transmitir.
Em comum, eles têm a busca da harmonia estética e integração entre homem e natureza, respeitando a funcionalidade do local. Sempre trabalham com a água – fisicamente através de lagos ou tinas; subjetivamente ou simbolicamente através da pedra em suas várias gramaturas. A pedra é tão importante na composição que está presente em todas as variedades de jardins japoneses, acompanhadas ou não de vegetação.
No Japão, esta arte evoluiu agregando várias técnicas e princípios estéticos de outras culturas através dos tempos, principalmente a chinesa. Mas em nenhum momento deixou suas características básicas, mantendo sempre o mesma simbologia.
Simplificando milênios de história que derivaram em uma infinidade de técnicas, esta arte se divide em duas linhas básicas de composição; a Sakuteiki (século 11) e a Karesansui (Paisagem Seca-séculos 14 e 15). A primeira recria paisagens naturais ou imaginárias com base na da realidade. A outra, regida pela austeridade Zen (séculos 14 e 15) propõe uma composição com pedras e areia.
O arquiteto Humberto Yakami explica que, em pequenos ou grandes espaços, a arte de cultivar um jardim japonês é assunto para profissionais. ‘‘Aparentemente simples, o jardim japonês é um sempre um cenário. Um espaço utilizado para recriar um microcosmo. A técnica é complexa, e cada passo do projeto tem um nome e uma forma de ser feito’’, resume. Ele acredita que poucos profissionais no Brasil tenham preparo para este tipo de trabalho.
Mas não desanime. O arquiteto explica que a adequação dos elementos do jardim japonês à nossa realidade é bem mais simples e o resultado é excelente, mas não dispensa o paisagista.‘‘O primeiro passo é jogar fora o estereótipo do jardim japonês cheio de lagos e pontes vermelhas’’, frisa.
No Japão, o jardim é pensado para um clima em mutação constante e a cada estação forma uma nova paisagem. Como no Brasil a passagem das estações não é definida, uma proposta interessante é trabalhar com plantas com vários matizes de verde. A escolha de flores de tonalidades suaves como as cerejeiras, jacintos de água e peônias podem reforçar a lembrança da cultura oriental.
As pedras são um elemento importantíssimo na composição destes jardins. São escolhidas a dedo pelo formato, tamanho, tonalidade, e têm de ‘‘combinar’’ uma com a outra, sempre amarradas a mensagem que a composição pede. Nas composições elas podem representar montanhas, penhascos e até quedas de água.
A linha Sakuteiki pede respeito a reprodução da costa marítima e fluvial, privilegiando os traços sinuosos e irregulares. A Paisagem Seca prima pelo geometria das formas, produzindo composições que apesar de surrealistas remetem facilmente a paisagens reais esculpidas pela natureza como os desenhos deixados pelas ondas nas areias do mar durante a maré baixa. Já o paisagismo moderno japonês mistura um pouco das duas linhas, colocando toques de verde em paisagens onde a pedra predomina, dentro do conceito minimalista e abstrato.
A melhor parte da opção por um jardim de estilo japonês é que ele realmente se adapta a qualquer espaço. Um exemplo é a técnica Hakoniua – jardim de caixa – que permite a recriação de jardins em miniatura dentro de uma caixa, sem abrir mão de todos os elementos. O Jardim Ryoandi, do Templo Zen (século 15), em Kioto, por exemplo, foi recriado em uma caixa com o objetivo de permitir aos cegos perceber suas formas e proporções (um jardim sensorial). Mas não é preciso reduzir tanto. Seus elementos podem ser compostos nas sacadas e pequenos espaços internos, mantendo a beleza e trazendo um pouco do simbolismo do jardim japonês tradicional .Adequação dos elementos dessa complexa arte milenar oriental à nossa realidade é simples mas exige assessoria profissional
ReproduçãoPOESIA VISUAL ‘‘Aparentemente simples, o jardim japonês é um sempre um cenário. Um espaço utilizado para recriar um microcosmo. A técnica é complexa, e cada passo do projeto tem um nome e uma forma de ser feito’’ReproduçãoJardim Ryoandi, no Templo Zen de Kioto e a reprodução em caixa: criação de jardim sensorialReproduçãoJardim do Museu Histórico de Kyoto: estilo contempororâneo

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