São Paulo - A incidência de Imposto de Renda (IR) sobre uma parcela dos depósitos da poupança não deverá reduzir os recursos destinados ao financiamento imobiliário, segundo analistas consultados pela reportagem. Atualmente, a caderneta é o principal instrumento para financiar a compra da casa própria e a construção de unidades habitacionais. ''O anúncio do governo afeta uma pequena parcela dos investidores e por isso a poupança não perderá recursos'', afirmou o presidente Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac), Miguel de Oliveira.
Nesta semana, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, informou que enviará ao Congresso Nacional projeto de lei para instituir a cobrança de IR (alíquota de 22,5%) sobre os rendimentos das cadernetas de poupança da parcela que ultrapassar R$ 50 mil. Segundo dados do Banco Central (BC), 98,9% dos poupadores têm aplicações inferiores a esse limite e esse grupo é responsável por 56,7% do saldo das cadernetas, que em agosto era de R$ 294,951 bilhões (incluindo poupança rural). Assim, o analista Fausto Correia, da Alpes, vê como marginal a possibilidade de migração de investidores da poupança para outros segmentos.
''Não há risco de uma perda consistente de recursos dessa aplicação'', constatou Correia. O analista lembrou que se essa possibilidade fosse real as ações das construtoras teriam reagido negativamente. Ao contrário, a maior parte dos papéis subiu na Bovespa. Cyrela avançou 2,77%, Gafisa e MRV tiveram valorizações de 1,24% e 0,45%, respectivamente.
Na avaliação de Oliveira, da Anefac, o governo estudou as duas pontas dessa equação antes de tomar a decisão. Se por um lado pretende evitar uma migração de outros investimentos para a poupança, do outro também se preocupou em não prejudicar os financiamentos imobiliários. Os bancos precisam destinar 65% do captado em cadernetas de poupança para financiamento habitacional. O Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) contava com um saldo de R$ 233,492 bilhões em agosto, valor 15,5% superior ao registrado no mesmo mês de 2008.
Aloísio Lemos, da Ágora, lembra que o setor da construção é um segmento que o governo está atento desde o acirramento da crise e por isso não tomaria uma decisão para esvaziar a principal fonte de recursos do setor. O analista acrescenta ainda que o governo quer apenas inibir a migração de grandes investidores para a poupança. Com a redução dos juros, a caderneta ficou mais atrativa em relação aos fundos DI, em que há cobrança de taxa de administração e de IR.

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