Mau hábito

Qualquer pessoa sabe que a limpeza e a higiene pessoal são condições fundamentais para uma vida saudável. O poder público e organizações não-governamentais difundem a idéia constantemente. Falta de informação não é justificativa para o acúmulo de detritos orgânicos ou mesmo recicláveis. Apesar disso, áreas comuns e particulares de condomínios residenciais viraram lixeiras a céu aberto. Cascas de frutas e legumes, cabelos, cotonetes, chumaços de algodão, papéis, bitucas de cigarro, calcinhas, palitos, embalagens plásticas, papel higiênico e absorventes usados, fezes de animais e até humanas são encontradas em prédios luxuosos e humildes.


Omissão


De acordo com Eunice Antunes, sócia-proprietária da Comtrat Predial Ltda, esse comportamento independe do grau sócio-econômico do condômino. Com 23 anos de experiência no ramo, ela afirma que é difícil descobrir os autores do 'delito' e mais ainda conseguir sua apresentação espontânea. Quando a repetição gera incômodo entre os moradores, normalmente, o síndico espalha uma circular ou fixa um comunicado em local visível. ''A investigação e o pretendido flagrante coloca especialmente o síndico e funcionários em alerta. Testemunhas sem provas preferem evitar a indisposição com vizinhos e, muitas vezes, nem comentam o fato com o síndico. Mas, quando os indícios apontam o culpado, uma conversa pode resolver. Caso contrário, a multa é plenamente indicada, principalmente quando é mencionada no regimento interno do condomínio'', explicou. A delação é mais fácil quando o ato é praticado por crianças ou quando um possível prejuízo é rateado entre todos. ''Nessa hora, às vezes, alguém prefere correr o risco de encontrar o vizinho de nariz torcido e fugir de uma conta que não é sua'', completou Eunice.


Perigo


Uma bexiga cheia de água já quebrou o pára-brisa de um carro, um vaso de planta poderia causar dano maior e até ferir uma pessoa, ovos atirados na parede de um prédio já obrigaram o condomínio vizinho a pagar uma nova pintura e objetos variados furam com facilidade telhas de amianto que comumente cobrem as garagens. ''Certa vez, precisei chamar a atenção de um morador cujo cachorro fazia xixi na garagem do prédio. Ele alegou que passava o dia trabalhando fora de casa e que, provavelmente, o animal ficava por conta dos filhos'', lembra Dalson Cordeiro Reis, sócio-proprietário da Administradora de Condomínios Nosso Lar. O ex-bancário, que atende 10 condomínios no centro de Londrina, soube também de dois princípios de incêndio causados por bitucas acesas de cigarro no mesmo prédio. Uma delas atingiu o colchão no quarto de um andar inferior e a outra atingiu a cortina.


Prejuízos


De acordo com Adiloar Franco Zemuner, assessora jurídica do Secovi-PR, em Londrina, o condômino que joga lixo pela janela além de desrespeitar o direito do outro a viver num local limpo e saudável pratica crime contra o meio ambiente. A lei de condomínio 4.591/64 e o Código Civil condenam essa prática e obtém reforço na convenção coletiva de trabalho e no regimento interno de cada condomínio (normas de bem viver). Uma assembléia, com ata registrada em cartório, também pode estabelecer normas de conduta e multa para quem desobedecê-las. '''Uma vez, um homem indignado com a sujeira jogada pelos moradores do prédio ao lado colocou tudo num saco plástico e deixou na porta do edifício com um cartaz esclarecendo a origem. Na falta de um acordo, casos semelhantes podem até parar na Justiça. Determinado prédio foi condenado a erguer o muro que o separava do vizinho e instalar uma tela para impedir que o lixo atirado por seus condôminos continuassem a poluir a piscina alheia'', rememora a advogada.


Paliativos


Antonio Alves, porteiro do edifício Angélica, limpa a marquise e o poço de ventilação a cada quatro dias para evitar que os ralos e as calhas entupam com sujeira jogada pelos moradores. ''Procuro cumprir com minha obrigação e acho que todos deveriam fazer o mesmo'', sugeriu Alves que há 18 anos exerce a função. No edifício Caviúna, onde vivem 75 famílias, existe um funcionário contratado especialmente para fazer essa limpeza três vezes por mês. Segundo o síndico Eizi Yamaki, essa solução foi tomada muito antes dele assumir o cargo há seis meses. ''Os horários e locais escolhidos pelos sujões demonstram que existe consciência do erro, mas acredito que o hábito seja herança cultural'', opinou. Nem o gasto com o desentupimento e a instalação de uma tela sobre a calha do imóvel vizinho alteraram a rotina desses moradores que, ultimamente, cobrem esse aramado com tudo que descartam. ''Se fosse síndico, eu colocaria uma câmera funcionando 24 horas/dia para flagrar a pessoa e multá-la. Isso não é uma atitude normal. É falta de educação que muda de rumo quando afeta o bolso'', disse o condômino Paulo de Oliveira.



Cobertura de danos

Na opinião do síndico Carlos Augusto Vieira, a situação é mais grave quanto menor é a instrução da pessoa. Condômino há mais de 30 anos e síndico há quatro, ele incluiu no seguro do edifício Glória a cobertura de danos contra terceiros porque duas laterais do prédio são vias públicas. ''Nosso porteiro cansa de recolher peças de roupa que voam para o vizinho e limpar os túneis de respiro que funcionam como sacos de lixo. O descaso é tanto que muitos retiram as telas colocadas nas janelas dos banheiros justamente para impedir esse abuso'', justificou Vieira que é responsável por 33 apartamentos no centro da cidade.


PQC 2006


Em continuidade ao Programa de Qualidade Condominial (PQC 2006), o Secovi-PR promoverá, no próximo dia 11, a palestra ''Poços Artesianos: vantagens e desvantagens'', ministrada pelo engenheiro civil Valdir Fernandes da Costa e o técnico químico que também é especialista em gestão para qualidade total Antonio Carlos Ajarila. O evento acontecer na sede do Ceal-Sinduscon, à Avenida Maringá, 2.400, às 19 horas, e é destinado a síndicos, administradoras, advogados, condôminos e comunidade em geral. Mais informações e inscrições pelo telefone (43) 3356-2703.


Secovi Sindicato da Habitação e Condomínios
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