Com o foco voltado ao processo de qualificação da vida urbana e da inclusão social da população, a 6 Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo mostra que a arquitetura pode não ser exclusividade das elites, mas um serviço que está ao alcance de todos. A Bienal aprofunda a reflexão já não mais tão acadêmica de que é preciso ir sempre muito além das edificações traçadas apenas para o abrigo, seja residencial, comercial ou industrial, e que é cada vez mais premente considerarmos - nós mesmos, os cidadãos comuns - que a intervenção do profissional de arquitetura e urbanismo não é mera apologia à carreira. É sim, condição básica para organizar os espaços urbanos, encontrar soluções para harmonizar o caos e as contradições das cidades, conciliando a realidade do crescimento desordenado à utopia do pensar idealizado.
Por esta razão, estão reunidos junto aos quase mil projetos assinados por consagrados arquitetos nacionais e outros 13 países que expõem, em área de 28 mil metros quadrados, um retrato da produção arquitetônica e urbanística contemporânea, trabalhos de 56 escolas de diferentes estados brasileiros, do Rio Grande do Sul ao Amazonas, e de países como Finlândia, Nova Zelândia, Canadá, México, Itália e Portugal.
Os projetos participam do Concurso Internacional de Escolas (com divulgação do resultado previsto para esta próxima semana) que tem como objetivo principal mobilizar as futuras gerações de arquitetos a vencer o desafio de projetar a vida urbana contemplando as exigências, já atuais, de mobilidade e acesso aos serviços de infra-estrutura, de educação, de saúde, transporte, de lazer e de cultura da sociedade, seja de que cidade for.
E mais: mostrar talento o suficiente para, sem desconsiderar as realidades e diversidades locais (cultural, social, econômica, política e religiosa, entre tantas outras), adequar projetos e programas suficientemente adaptáveis às variações das condições para quem vive na e a cidade.
O projeto Favelização Urbana - Vila Tronco, proposta da estudante Letícia Fernandes Franco e dos recém-formados arquitetos e urbanistas Efreu Quintana e Juliana Piletti, do Centro Universitário Ritter dos Reis, de Porto Alegre, é um destes exemplos que pedem passagem para a transformação. A partir do tema Viver nas Cidades - Arquitetura, Realidade e Utopia, e sob orientação do professor arquiteto Júlio Celso Vargas, eles elaboraram um projeto que apresenta alternativa de qualificação para uma antiga favela de Porto Alegre, cuja ocupação se iniciou em meados da década de 1950 e hoje faz parte do complexo de vilas e ocupações irregulares localizado em região central chamado Grande Cruzeiro - consolidado como bairro, mas com características periféricas e marginalizado.
Com a idéia de valorizar o esforço dos moradores na construção das suas casas e preparar a vila para o futuro, levando em conta a sua história e suas características sociais, o projeto defende o fornecimento ao proprietário não de um modelo pronto, mas de uma estrutura inicial, em concreto armado pré-moldado e instalações hidráulicas, com o qual poderá construir e ampliar sua residência conforme sua necessidade e com o material que desejar.
''Seria o SUS da arquitetura'', relata Quintana, em defesa da proposta que prevê também uma linha de financiamento específica para esta parcela da população.

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