Servir com presteza, atenção geral, educação contra os desaforos, ouvidos moucos, iniciativa, bom humor e discrição. Essas são características necessárias a qualquer empregado doméstico, mas fundamental aos porteiros. A profissão, inclusive, tem data no calendário nacional - 9 de junho. Considerado o braço direito dos síndicos de condomínios, o porteiro também é a caixa de ressonância dos moradores que geralmente expõem suas críticas, dúvidas e sugestões na recepção do prédio. ''Esta é uma situação delicada para o funcionário que precisa definir o momento de encerrar os debates antes que o local se torne um palanque'', disse João Bosco Rebello, consultor de condomínios.
Quando chega ao trabalho, Juarez Mariano da Silva, 39 anos, esquece todos os problemas porque necessitará de concentração e paciência para atender diversas solicitações. Porteiro do Edifício Bosque (centro de Londrina) há seis anos, ele acostumou-se a ouvir reclamações sobre latido de cães, músicas em alto volume, chuveiro queimado, entre outras. ''Às vezes, a gente ouve uma resposta torta, mas não pode retrucar: tem que ficar calado'', aponta Silva como uma desvantagem da atividade. Descontente também com o salário, ele sonha em aprimorar seus conhecimentos em eletricidade e montar uma oficina de conserto para eletroeletrônicos.
Como em qualquer profissão, existe também pessoas satisfeitas com o trabalho, que pretendem continuar no ofício até a aposentadoria. É o caso de Roberto Carlos da Silva, 34 anos, e Ambrosina Nogueira de Macedo, 48 anos, que possuem quase 20 anos de experiência cada um. Ambos trabalham, na maior parte do mês, durante o dia e vêem no contato com várias pessoas e o registro em carteira como as maiores vantagens. ''Quando fui contratada por este condomínio avisei que teria mais um filho para fazer a laqueadura e eles aceitaram. Além do salário, recebo cesta básica, vale transporte, assistência médica, férias e 13º salário'', detalha Ambrosina, que deixou Caruaru (PE) aos 20 anos para ser babá, em São Paulo, e, depois de namorar um porteiro, casar e enviuvar, assumiu a função do falecido para sustentar os dois filhos.
Silva já foi garçom e metalúrgico, mas como porteiro garante que ganha mais e vive melhor. O segredo é uma boa noite de sono e os 'bicos' de pintor, encanador e eletricista que realiza no apartamento dos atuais e antigos moradores do prédio. ''Sempre acompanhei os prestadores de serviço e assim aprendi a resolver uma série de problemas caseiros que acontecem no dia-a-dia'', disse o porteiro, que orgulha-se de sustentar a mulher, um casal de filhos, possuir internet, um carro e uma motocicleta.
Na opinião do consultor João Bosco Rebello, a maior dificuldade dos porteiros é a falta de respaldo dos síndicos, que aproveitam pouco o potencial destes funcionários. Segundo ele, nada adianta pagar um curso de reciclagem para o porteiro se o síndico não ouvir suas idéias. ''Ele ficará frustrado, desmotivado e voltará a trabalhar no nível anterior. Por isso, defendo que a atualização de conhecimentos seja oferecida a ambos em benefício do condomínio. É preciso haver uma sintonia entre eles para que a administração flua com tranquilidade'', explicou.

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