Rappers, casais simpáticos, crianças chupando picolés, aposentados em busca de complementação de renda, camelôs comunicativos, donas de casa exercendo o saudável ato da pechincha. Estes são alguns personagens que formam o universo plural da feira livre da Avenida Saul Elkind, a maior feira da cidade e o principal ponto de encontro da Zona Norte nas manhãs de domingo.
A feira se estende por meio quilômetro. Começa aproximadamente na altura do número 803 e acaba por volta do número 1384. No domingo, feriadão de 7 de setembro, a feira parecia ainda estar mais lotada. O ápice da movimentação é às 10h30, mas as primeiras das 100 barracas de produtos convencionais (são mais 150 ambulantes e camelôs) começam a ser instaladas por 6h30.
Se ao invés de passar nas barracas, apertar o tomate para saber se estão firmes, analisar os pólos das laranjas, conferir se o cheiro verde está fresco, ou se o sabor do recheio do pastel continua combinando com o sabor do caldo de cana, o frequentador passar a escolher alguns dos personagens citados acima para um bate-papo, a sacola poderá voltar vazia e o carrinho continuar fechado. Em compensação, este privilegiado vai almoçar no domingo entendendo porque a Zona Norte é a mais peculiar das regiões da cidade.
O servidor municipal Airton Calegari, 43 anos, vem logo cedo. Ele é morador do Verdão (como ele chama o Ouro Verde) há 16 anos. ''Não falho um domingo'', afirma. Ele diz que a princípio o que mais o atraiu para manter o hábito foi a qualidade dos produtos vendidos, segundo ele, selecionados. ''É bem melhor que nos supermercados. É mais fresco. Além do mais, a variedade que a gente encontra aqui, não encontra em lugar nenhum''.
Mas agora, Calegari já não tem mais dúvida. Ir à feira é uma diversão que ele não abre mão. Acabou se tornando um fã do ambiente e passou a dividi-lo com o filho Lucas, de 9 anos. O garoto não vê a hora de ter mais tempo com o pai. De comer um pastel e tomar um caldo de cana antes de ter o domingo inteiro pela frente.
Há gente mais preocupada na feira. Seo Walter João de Giule, 64 anos, é um deles. Está vendendo picolé no inverno (a temperatura excepcionalmente quente o incentivou a iniciar a temporada) e tenta complementar a parca aposentadoria que recebe R$ 240,00 contando os centavos de cada unidade vendida.
Na verdade, Giule busca esquecer que está trabalhando duro na idade na qual poderia estar passeando despreocupadamente com os netos. ''Sou um porteiro desempregado'', diz, confessando que está quase desistindo de procurar uma vaga em sua profissão.
O sorveteiro lembra que vê a região e sua feira com alegria. Ele conheceu os primórdios do Semíramis e não consegue esquecer. ''Era muito barro, muito mesmo. Tinha matagal para todos os lados. Meus filhos mais velhos não aguentaram e foram embora. Eu fiquei e não me arrependo. Hoje tem tudo o que você quer. Quem viveu o começo disso aqui, não pode reclamar de nada hoje'', diz.
Josefina Colombo, 76 anos, concorda com o sorveteiro. Há 26 anos no Conjunto João Paz, ela aponta para vários lados e comenta com orgulho: ''Isto aqui era tudo café.
A cartomante Luzia Cardenes Mioto, também moradora do João Paz, completa bem humorada. ''Não era esta fartura toda por aqui. Se faltasse sal na cozinha, não tinha comida. Tinha que comprar tudo no centro'', lembra, reforçando que a distância parecia muito maior naquela época. Ela comenta: ''Muita gente não aguentou as dificuldades do começo e foi embora. Vivo encontrando gente que se arrependeu de ter feito isso''.
Tomar um caldo de cana e pensar no progresso da região onde se mora não faz mal a ninguém. Estão todos na barraca do seo Benedito Aparecido, 50 anos, fazendo as duas coisas. O transportador Joaquim Ribeiro Lopes mora há 25 anos no Milton Gavetti. ''Para mim, não existe lugar melhor'', diz. Lopes lembra da alegria de ter a primeira casa própria e de que logo depois da mudança ''caiu na real''. Ele recorda: ''Era uma situação precária''.
Aparecido diz que em um domingo bom chega a faturar R$ 100,00 e parece realizado de fazer parte da feira e de cumprimentar uma multidão até sair do lugar, por volta das 13h30. ''A gente andava 25 minutos no barro para pegar um ônibus para o centro. Não era brincadeira''. Ele diz que hoje ao invés de ir para ao centro ele recebe visitantes de lá, como o casal formado pelo bancário aposentado Orlando Lopes, 51 anos, e sua mulher Izaura Martins. Aparecido completa: ''A gente não esperava esta transformação''.
A cabeleireira Meirian Aparecida dos Santos, 25 anos, conhecida como Tuca, mora no Aquiles Stenghel desde que nasceu e se lembra que há muito tempo aproveita ''os preços em conta'' da feira. Já comprou de tudo: cinto, bolsa, sapato, pastel, mas sabe enxergar as mazelas sociais da Zona Norte.
Tem autoridade de sobra para ser a backing vocal do Estilo Negro, um grupo de rap cujas letras (composta por Tuca) pedem paz ''para que a revolta não façam os irmãos a cometerem besteiras''. Depois da declaração, pede uma foto bem família, com as duas filhas Jheniffer, 7, e Jéssica, 4 anos. Ela diz ter o maior orgulho de fazer parte da história do Cincão. ''Aqui, tenho ligação com o povo inteiro''.
No final da feira, pode-se encontrar com o consertador de eletrodoméstico Sebastião de Carvalho, 70 anos. Ele quer uma propaganda para seu negócio prosperar. Durante a semana, faz os consertos na Rua Bicudo, 147, no Conjunto Violin, onde mora há 16 anos. ''A feira é boa e me ajuda muito'', diz o aposentado, cujo cachê varia de R$ 5,00 a 50,00.

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