Oratórios, esculturas de anjos e santos, velas, incenso, flores e livros sagrados. Independente do ‘‘que’’ e em ‘‘quem’’, toda fé, desde que pregue o bem, merece respeito e um espaço especial na vida das pessoas. Um lugar acessível e sempre presente. Quem pensa que esta dedicação é um traço apenas das religiões e filosofias orientais está enganado. Os cristãos também cultivam este hábito.
É um movimento tranquilo, quase invisível, mas que vem crescendo nos últimos cinco anos. Jovens, casais e famílias das mais variadas situações econômicas e culturais estão levando o exercício da fé para dentro de casa, sem timidez.
Um exemplo é o que vem acontecendo entre os católicos. O que costumava se resumir em um crucifixo na sala de estar, uma pintura da Santa Ceia na sala de refeições ou a imagem do santo de fé sobre a porta de entrada está tomando vulto.
A referência virou espaço. Cada vez mais pessoas incluem um ‘‘canto’’ para orar no projeto de decoração de sua casa. Mais, o que era íntimo e pessoal até recentemente, agora é parte integrante do cotidiano e fica visível e acessível, tornando-se quase um novo ambiente da casa – pequeno, mas valorizado.
‘‘As pessoas anseiam por ter em casa um lugar apropriado para se recolher em pensamento ou oração. Querem que ele esteja presente, mas sem ostentar ou impor o seu credo. Por isto a procupação em criar um espaço harmonioso’’, afirma a decoradora Marlene Ricci. Ela atribui esta preocupação à mudança da forma de encarar a religião, principalmente dentro do catolicismo.
Para ela, as pessoas estão despertando para a consciência de que praticar uma religião não é uma função pesada, mas uma fonte de esperança e alegria. ‘‘Se recebemos nossos amigos, conversamos e ouvimos música na sala, nada mais justo que levar o espaço de orar para os locais de convívio, ditos sociais’’, argumenta.
Seguindo este modo de pensar, a sala de estar é a primeira em preferência para receber este espaço, seguida de perto pelos espaços que acabam virando área de circulação por falta de um melhor aproveitamento. Quem quer um pouco mais de privacidade pode optar pelo quarto de dormir. Montar o canto de oração ao lado da cama é a escolha mais tradicional.
Todo cuidado para não transformar o espaço em um altar barroco é pouco. Marlene Ricci lembra que todo escesso leva inevitavelmente à ostentação e ressalta que a maioria das religiões pede humildade e simplicidade. Embora este espaço não esteja presente na maioria dos projetos que chegam até a decoradora, ela confirma que o pedido vem se tornando frequente.
A fonoaudióloga Célia Maria Albieri Vieira é um exemplo deste novo modo de ver a casa. Ela mudou de casa no início do ano passado e ter um espaço para orar foi uma exigência. O lugar escolhido foi o final do corredor, aproveitando um espaço que não interferia na circulação.
‘‘Queria um lugar por onde todos passassem frequentemente no ir e vir diário, numa forma de transmitir bons pensamentos’’, explica. Marlene Ricci criou um nicho no corredor, na altura do encontro dos corredores que levam aos quartos e sala de televisão.
Assim, ao mesmo tempo em que o canto de oração está ‘‘preservado’’, ele também fica perfeitamente integrado ao restante da casa. A escolha do local faz com que as pessoas da casa passem, necessariamente em frente ao altar onde está Nossa senhora de Fátima, várias vezes ao dia. O nicho oferece um ar sutil de ‘‘recato e contemplação’’. O truque está no jogo de luzes que deixa o altar iluminado e claro, quase ‘‘vivo’’.
Célia Albieri confessa que houve época em que tinha receio de ser considerada ‘‘carola’’ pelos conhecidos e amigos. ‘‘Acho que isto acabou me fazendo protelar a decisão de ter um canto de oração em casa. Agora não tenho mais esta preocupação, mas sei que muita gente ainda não fez o mesmo por ter o receio que eu tive’’, diz. Hoje, o canto de oração é referência também para os filhos de 22, 20 e 15 anos da fonoaudióloga, que também valorizam o espaço.

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