Entre o prazer da bola e a expectativa de uma ''gelada''
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sábado, 13 de setembro de 2003
Lúcio Flávio Moura<br> Reportagem Local 
No domingo da Saul, os carros passam e o som das caixas se propagam. Tem de tudo: funk do morro, sertanejo de raiz, sertanejo de boutique, gangsta rap, eletrônico, axé music, pagode e pop. Longe deste caldeirão rítmico, homens de meia-idade, pós-adolescentes, mulheres e crianças dispensam a música para se divertir.
O som que os move é outro: gritos, gargalhadas, aplausos e vaias. As manifestações ao lado de um campo de dimensões modestas e gramado ralo são efusivas, embora não haja craques para reverenciar no máximo ex-jogadores cujo tempo foi consumindo também o talento há entusiasmo no
campo do Conjunto Sebastião de Mello César (mantido pela Associação de Moradores do Conjunto Maria Cecília), mais um dos agitos dominicais da principal via da Zona Norte.
São 16h30. Jogam os aspirantes do Maria Cecília, time da casa, contra a Fazenda Paraíso. ''Faz mais um que o time é muito fraco'', a mulher grita e, em seguida, gargalha. O placar é folgado para os mandantes. Nem de um lado, nem de outro, os 4 a 1 tem consequências importantes. Os 22 atletas se preocupam com o momento seguinte. Já pensam no jogo de fundo, o duelo dos times principais.
O árbitro será Israel dos Santos, 43, que pega o apito sem apreensão. Londrinense da Vila Ricardo, morador do Maria Cecília, o carpinteiro são-paulino gosta da idéia de mediar o embate e de ouvir xingamentos, mais irônicos e menos raivosos do que os ouvidos no Estádio do Café.
''É uma forma de participar'', resume Santos, o técnico vitorioso da preliminar, que só bate uma bola ''bem de vez em quando''. Ele diz que, às vezes, vai acompanhar às rodadas no campo do Heimtal pela manhã. Então, é um dia inteiro de futebol? Ele corrige, dizendo que à noite também é hora de ver gols, desta vez feitos pelos craques da televisão.
A programação futebolística começa logo depois do almoço, quando nos conjuntos vizinhos ao campo as ruas se transformam em quintais, com cadeiras na calçada, crianças e animais de estimação distraindo pais e parentes, aqueles que não falharam na promessa de fazer aquela visitinha.
Por volta das 13h30, o retângulo mágico com as duas metas o único espaço esportivo da Saul está trancado, mas carros e bicicletas já começam a parar do outro lado do alambrado. Sem vestiários, a borda da praça esportiva se transforma em um espécie de provador sem cortina.
Os jogos vão se sucedendo e a sede vai aumentando. Até o final da tarde, a vontade de beber cerveja vai ficando insuportável para os ''atletas''. O zelador Celso Sales, 38 anos, também do Maria Cecília. Ele conta que tão certo quanto as pernas vão ficar doloridas na manhã de segunda-feira é a cervejada na Lanchonete da Inês. ''É de lei. Tem que tomar uma depois''.
Uma, na verdade, são várias, e talvez o motivo destes homens se acomodarem em uma mesa de bar esteja mais relacionada ao prazer da convivência com a gente simples da Zona Norte do que propriamente com a necessidade de se repor o líquido perdido com carrinhos e caneladas. ''Lá a diversão é garantida. A gente encontra todo mundo''.
Israel dos Santos, o árbitro sem uniforme dos finais de semana, dá um peso quase medicinal à atividade dominical. ''Queimo calorias. Diminuo a gordura do corpo'', consola-se. No entanto, o carpinteiro tem um hábito que pouca gente que está no campo conseguiu adquirir. Ele caminha, religiosamente, todos os finais de tarde.
Sai de casa às 18h15 e vai se integrar a legião de precavidos moradores que fazem jogging na Saul Elkind. Como o colesteral a ser controlado ainda é alto, Santos não poupa pernas. Suas sessões de passos acelerados duram uma hora é meia. ''Chego em casa, tomo um banho, assisto o Jornal Nacional, janto e depois me preparo para dormir''.


