Desníveis dão movimento e charme a qualquer jardim
PUBLICAÇÃO
domingo, 10 de dezembro de 2000
Célia BaroniDe Londrina 
Um jardim bem projetado e bem cuidado é sempre bonito; mas pode ganhar muito mais charme se tiver declives e elevações, reais ou sugeridas. Plano ou em declive, um jardim com movimento oferece mais prazeres ao seu usuário e visitantes.
O paisagista e engenheiro agrônomo, Ricardo Armando, explica que a utilização de vários planos incentiva o passeio, multiplicando as descobertas e ângulos de visão. Os terrenos em declive são perfeitos porque já oferecem naturalmente o movimento para o jardim. Já, para dar movimento aos jardins em terrenos planos o melhor é trabalhar a altura da vegetação, orienta.
Armando argumenta que muitas pessoas escolhem terrenos planos pensando que ele oferece mais conforto e economia na hora de construir. Não é verdade, diz. O conforto não depende da inclinação do terreno, mas da forma como ela é trabalhada.
Além do custo do obra, o que mais pesa no valor final é o aterramento da área. Mas por que aterrar? questina o paisagista. Para Ricardo Armando, o ideal é respeitar a geografia original do terreno, aproveitando a beleza que ele pode oferecer. Ele lembra que Burle Max usou e abusou com sucesso dos declives para criar seus famosos jardins.
Criar vários taludes (elevação de nível de terra) no jardim é uma alternativa para compor um jardim cheio de movimento e, ao mesmo tempo, suavizar o declive do terreno. O objetivo porém não deve ser o de corrigir, mas o de aproveitar ao máximo o desenho do terreno, reforça. Estes pequenos terraços permitem a composição de nichos e o traçado de caminhos com escadas.
A proposta é esta mesma: a cada passo uma nova descoberta. Este resultado, no entanto, só é possível através de uma parceria sintonizada entre o arquiteto e o paisagista. Por isto planeje bem o seu jardim para que ele não decepcione você depois, aconselha.
Ricardo Armando explica que a decepção é consequência de um mau projeto e constantemente o pecado está na falta de continuidade e conclusão da proposta feita para o espaço. Não adianta criar caminhos que não levam a lugar nenhum, nem mistérios sem respostas. As expectativas, reforça, têm de ser correspondidas.
Em um jardim pequeno, por exemplo, não abuse das definições físicas de caminhos nem dos taludes e morros. Uma sugestão é aproveitar um dos cantos para criar um lugar para estar (gazebo ou um cantinho especial) de onde ter uma visão mais ampla da beleza do espaço. Um caminho pode ser traçado de forma subliminar. Plantas, pedras, madeiras, fontes, etc., tudo é válido se utilizado com harmonia.
Em um de seus projetos, Armando colocou uma pequena cacheira atrás do gazebo. A área do jardim era pequena. O gazebo foi elevado com um talude, sugerindo um pequeno desnível, suficiente apenas para uma pequena queda de água, conta. O resultado foi o surgimento de um cantinho a ser descoberto e curtido.
Talvez de todos os recursos para dar movimento a um jardim, o mais charmoso sejam as escadas. Aparentemente apenas um instrumento para transpor desníveis, elas são, na verdade, um elemento à mais na composição da paisagem. Quando bem projetadas (poucos degraus e inclinação adequada), as escadas reforçam o prazer do passeio, marcando o caminho e oferecendo novos ângulos de visão a cada degrau. Mesmo no jardim elas aceitam a companhia de uma rampa, desde que as duas usem materiais que harmonizem entre si, garantindo segurança e conforto também para portadores de deficiências momentâneas ou definitivas.
O fato, resume o paisagista, é que pequeno ou grande, o jardim só é válido para ser vivenciado e aproveitado. E o excesso de homogeneidade pode tornar o espaço desinteressante. Quanto ao custo, ele garante que, aproveitando a inclinação natural do terreno para fazer o jardim, o gasto é sempre menor.


