Águas de Março, Ressaquinha e Reinado & Congada são alguns dos nomes escolhidos por Maurício de Azeredo para batizar os móveis que criou nos últimos 25 anos, deixando evidente o profundo vínculo entre seu trabalho e a cultura nacional. Como mostra a exposição no Masp, em São Paulo, o designer construiu uma linguagem absolutamente pessoal e contemporânea a partir de elementos do imaginário popular.
‘‘Eu detenho-me absolutamente fascinado diante da transformação do barro numa panela, do retalho numa colcha’’, diz Azeredo. O material por excelência é a madeira. Ou melhor, as madeiras, que vem investigando desde a década de 70. Basta ver um trabalho como o banquinho Palha para se ter uma idéia dessa variedade. Retomando o desenho das tradicionais cadeiras de palhinha, ele constrói uma escala impressionante de tons.
Como explica Adélia Borges, autora do livro Maurício Azeredo - A Construção da Identidade Brasileira no Mobiliário, ‘‘ele foi o pioneiro no uso da diversidade, ao associar diferentes espécies num mesmo móvel’’. Essa dedicação também tem implicações ecológicas, pois a diversidade é um interessante meio de recuperar áreas florestais devastadas.
No que se refere à produção, isso representa um grande desafio, não apenas estético, mas técnico. Se chapas de madeira de uma mesma árvore têm comportamento distinto, imagine o quebra-cabeça que significa unir 20 madeiras diferentes numa única peça. Azeredo mora numa cidadezinha colonial de Goiás, onde trabalha com dez colaboradores. Lá, não há qualquer tipo de divisão técnica do trabalho. ‘‘O que eu procuro fazer é eliminar a ruptura entre o pensar e o fazer’’, resume. ‘‘Essencialmente, o que me move é aquilo produzido pela mão humana’’, conta.
A montagem da exposição privilegia o aspecto processual do trabalho, ao exibir uma cadeira totalmente desarticulada (como se tivesse acabado de explodir) ou amostras de 20 tipos de madeira em diferentes estágios de preparação. Mas a seleção também é suficientemente ampla para mostrar a diversidade de caminhos tomados pelo designer. Partindo da vasta paleta de madeiras nacionais, ele conseguiu compor diferentes universos de criação, que variam do rigor geométrico às sedutoras formas orgânicas. Mas todos eles têm a cor e a vibração que Azeredo atribui ao povo brasileiro.

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