Construção civil está otimista sobre reaquecimento do setor
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de outubro de 2003
Osmani Costa<br> Reportagem Local 
Passada a turbulência das incertezas econômicas que acometeu o Brasil desde o início do segundo semestre do ano passado quando na iminência da vitória do candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à presidência da República houve uma explosão do dólar, a volta da inflação, fuga de capitais estrangeiros, aumento do risco-país e consequente aumento das taxas de juros , alguns setores produtivos já dão sinais de retomada da normalidade e apontam para a volta do crescimento nos próximos meses.
É o que ocorre com a construção civil, importante setor da economia que historicamente movimenta altos investimentos financeiros e gera direta e indiretamente grande número de empregos, principalmente para a mão-de-obra menos qualificada. A informação é do presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon) no Norte do Paraná, o empresário José Roberto Hoffmann, que prevê um reaquecimento das contruções em Londrina para breve.
Folha A recente crise econômica foi forte; 2002 foi um ano perdido para a construção civil?
Hoffmann Diria que foi muito difícil. A crise começou no ano passado, com a subida acentuada dos juros e do dólar. Os potenciais clientes da construçao civil preferiram migrar seu capital para os investimentos bancários, que passaram a ter maior rentabilidade. Quem estava para comprar imóveis para uso próprio ou para vender ou alugar futuramente preferiu aguardar um melhor momento. O setor ficou estagnado por falta de competitividade.
Folha Mas o pior já passou?
Hoffmann Há sinais de que sim. O dólar está controlado e os juros começaram a ser baixados mês a mês pelo Banco Central. Nosso mercado já não está tão retraído; voltamos a conviver com a compra e venda de imóveis e a retomada das contruções. Os investidores vão voltando aos poucos para nosso setor.
Folha O dólar tem muita influência nos custos da construção?
Hoffmann Tem, sim. Direta e indiretamente. Muitos dos nossos insumos estão ligados à cotação da moeda norte-americana. Alguns produtos são mesmo importados, como por exemplos o cobre e o alumínio. Mas o dólar interfere inclusive nos preços dos insumos produzidos no Brasil. É o caso do aço, que conforme o valor do dólar fica mais atraente ser exportado. Daí, o preço dele sobe também internamente. Outro exemplo é o cimento. É produzido no País, mas boa parte de seu preço é composto pelo frete. Com o dólar alto, sobe o preço do petróleo importado. Então, sobem o óleo diesel, o frete e o preço do cimento no Brasil.
Folha Quais são as perspectivas para este final de ano e 2004?
Hoffmann Estes últimos meses já têm sido melhores. O segundo semestre começou com uma clara demonstração do governo federal de que desejava baixar os juros. As vendas de imóveis foram retomadas. As perspectivas são boas, até porque 2004 é ano eleitoral e possivelmente aumentarão as obras públicas de infra-estrutura. Os governos federal, estadual e municipais devem injetar recursos em construções de escolas, hospitais, postos de saúde, delegacias e outras obras necessárias.
Folha Em casas populares?
Hoffmann Elas já voltaram a ser construídas por meio de financiamento do Fundo de Garantia. Atualmente, estão em construção cerca de 1.500 unidades em Londrina. Mas não são as mais atrativas para as construtoras, porque oferecem menor taxa de lucro e risco por causa da instabilidade dos preços dos insumos. São obras licitadas e com preços fixos por empreita.
Folha Quais são então os principais filões para o setor atualmente?
Hoffmann São dois, basicamente: edifícios residenciais de médio e alto padrão, e condomínios horizontais fechados. Nestes, só na região sul da cidade, há 2.500 terrenos prontos para receber novas casas. Em relação aos prédios, só na Gleba Palhano que até pouco tempo era um bairro praticamente desabitado estão em construção hoje cerca de 30 deles, empregando perto de 2.500 homens. E isto foi possível graças a mudanças no Plano Diretor. A Prefeitura de Londrina e a Câmara de Vereadores devem avançar nas mudanças na legislação para possibilitar o crescimento da cidade por meio de obras também para outras regiões, a exemplo do que está ocorrendo com a sul.
Folha Seria importante para que a construção civil voltasse a ser o setor que mais emprega na cidade, como ocorreu no passado.
Hoffmann Ainda somos o setor que mais emprega a mão de obra com pouca escolaridade. No entanto, estamos longe dos bons tempos. Na década de 1980, o setor chegou a empregar 12 mil trabalhadores. Hoje, são cerca de 3.500 com carteira assinada e outros 3.000 trabalhadores informais. Aliás, a informalidade que ocorre principalmente na contratação de poucos operários para a construção de casas é um dos maiores problemas do nosso setor atualmente. Ela tira a capacidade de competitividade de nossas empresas, mas também é prejudicial para quem contrata pensando em fazer uma economia que na maioria das vezes não ocorre.
Folha Os investidores estão descapitalizados, quem precisa de moradia muitas vezes não tem dinheiro para a construção. Há nos bancos linhas de crédito atraentes para o financiamento de imóveis?
Hoffmann Pouco, muito menos do que necessita a população e do que seria suficiente para sanar o déficit habitacional no País. O maior financiador é a Caixa Econômica Federal, porém ela atua mais no setor populara com recursos do FGTS, o que está corretíssimo. Ela tem ainda algumas outras iniciativas com taxas de juros diferenciadas. Mas no geral, os juros dos bancos ainda estão muito altos e inibindo os financiamentos para a construção. Entre os bancos privados, os juros são quase proibitivos e a seleção dos interessados é muito rigorosa; só é aprovado na seleção quem na realidade não precisa do empréstimo.


