Adriane Fernanda Silva,  Valéria Rodrigues Costa e Conrado Braga Zagabria com o projeto da nova praça elaborado com a participação ativa dos moradores
Adriane Fernanda Silva, Valéria Rodrigues Costa e Conrado Braga Zagabria com o projeto da nova praça elaborado com a participação ativa dos moradores | Foto: Saulo Ohara



Um trabalho de conclusão de curso de uma estudante de arquitetura e urbanismo da UEL (Universidade Estadual de Londrina) pela primeira vez sairá do papel e será colocado em prática, ou melhor, em construção. Pensado em conjunto com a comunidade, o projeto de uma praça em um terreno de cerca de 4,2 mil metros no Jardim Burle Marx, na zona sul de Londrina, será executado com apoio do poder público, mas principalmente com a ajuda e participação dos próprios moradores.

O engenheiro civil e morador do bairro, Conrado Braga Zagabria, conta que o Ipuul (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina) já possui o projeto de uma praça para o local. "Mas achei muito simples para um espaço tão grande. É um projeto padrão, com campo de futebol, pista de skate, academia ao ar livre e paisagismo", descreve. Com a intenção de fazer algo diferente e mais convidativo para o uso dos moradores e da comunidade do entorno, Zagabria decidiu procurar a UEL.

Ele conta que conversou com uma professora do curso de Arquitetura e Urbanismo e sugeriu montar um grupo para pensar no projeto de forma coletiva. No ano passado, soube que a estudante do último ano da graduação, Adriane Fernanda Silva, havia se interessado pela ideia e decidido fazer o projeto da praça como trabalho de conclusão de curso. "Envolvi a associação de moradores e trabalhamos em conjunto. Fizemos reuniões e oficinas e o projeto ficou lindo, muito melhor que o original", comemora.

A arquiteta e urbanista recém-formada, Adriane Fernanda Silva, diz que, nas oficinas, os moradores puderam sugerir o que queriam que tivesse na praça. "Foram dois encontros. Levei maquetes e desenhos e fizemos um varal para que eles colocassem os sonhos para o espaço", conta. A partir das opiniões e dos itens mais pedidos, a então estudante desenvolveu o trabalho. Os temas mais votados e considerados prioritários pela comunidade foram áreas para a prática de esportes e para crianças.
O projeto criado por Adriana inclui academia ao ar livre, playground, tênis de mesa, horta comunitária, espaço para leitura, quadra poliesportiva, paisagismo, fonte interativa, áreas livres. Para a arquiteta, o mais gratificante de todo o processo foi ver a participação ativa da comunidade. "O bairro é pequeno e em cada oficina tivemos a presença de 30 a 40 pessoas", comemora. Foi uma pequena amostra do que a nova profissão será capaz de proporcionar.

Imagem ilustrativa da imagem Comunidade se une por praça no Burle Marx
| Foto: Divulgação



NA BUSCA POR RECURSOS
Com um projeto mais ousado em mãos, o desafio agora é levantar os recursos necessários para a execução completa da obra. Conrado Braga Zagabria confessa que não vai dar para financiar tudo com o dinheiro da comunidade. Mas, no orçamento, ele diz que o grupo separou a praça por módulos e definiu datas e metas para a construção em etapas. A primeira conquista já pode ser celebrada. Na semana passada, eles garantiram um minicampo de grama sintética e a academia ao ar livre. Os recursos virão da Secretaria do Esporte e do Turismo do Paraná.

A presidente da Associação de Moradores do Jardim Burle Marx, Valéria Rodrigues Costa, conta que já protocolou dois ofícios na FEL (Fundação de Esportes de Londrina), que seriam encaminhados ao governo estadual. Apesar da ajuda, Valéria afirma que tem enfrentado algumas barreiras para realizar adequações no terreno. Segundo ela, algumas árvores grandes estavam cheias de cupins e foram cortadas com autorização da Secretaria Municipal do Ambiente. "Mas não conseguimos ajuda para retirar as raízes", lamenta.

De acordo com Valéria, o serviço não pode ser custeado pela associação. Isso tem atrasado o plantio de grama e de árvores de médio e pequeno porte, além da construção de calçadas. A presidente da associação enfatiza a importância da praça para o bairro, que conta com cerca de 300 domicílios e 200 crianças. "Elas não têm onde brincar", justifica. O espaço será utilizado principalmente para esportes e lazer. Mesmo com o aumento de voluntários no bairro, ela afirma que precisa de mais ajuda.

Uma das possibilidades levantadas por Conrado Braga Zagabria é o apoio financeiro da iniciativa privada por meio do programa municipal Boa Praça. "O que percebi é que a maioria das empresas adotam canteiros, quase nenhuma adota praças, que são importantes para o ambiente urbano e a interação das pessoas", lamenta. Mesmo assim, Zagabria está longe de desistir da obra. "Minha maior motivação é saber que o projeto tem a cara da comunidade", revela. Por enquanto, o espaço localizado na Rua Alcino Carneiro Ribas recebeu limpeza e terraplanagem.

PARCERIA QUE DEU CERTO
O arquiteto, urbanista e professor da UEL, Fausto de Lima, diz que o projeto colaborativo desenvolvido por Adriane Fernanda Silva com a comunidade do Burle Marx foi a primeira experiência do tipo dentro da graduação. Na avaliação dele, o trabalho foi enriquecedor tanto para a aluna e professores, que tiveram contato com uma nova maneira de pensar o espaço da cidade, como também para a comunidade do bairro.

Para Lima, a experiência de Adriane pode abrir caminho para outros projetos colaborativos dentro da universidade. O professor ressalta que a UEL já oferece atendimento à comunidade externa por meio do Escritório Modelo OCAS. Interessados em contar com a ajuda da instituição podem entrar em contato com a coordenação do curso de Arquitetura e Urbanismo da UEL pelo telefone (43) 3371-4535.

União de moradores transforma terreno no Vale dos Tucanos


O Jardim Burle Marx não é o único em Londrina a ganhar uma praça por iniciativa dos moradores. No Vale dos Tucanos, a população também se uniu para revitalizar um terreno que anos atrás abrigava apenas uma montanha de entulhos da construção civil. O contador e morador do bairro, Eduardo Ogleari, conta que a Praça da Família, de cerca de 4 mil metros quadrados, fica entre as ruas André Gallo e José Manoel de Souza.

Com a ajuda de um vereador, Ogleari diz que foram retirados os entulhos e feita a terraplanagem. A loteadora plantou a grama e a iluminação foi custeada pelos próprios moradores, assim como a calçada e os bancos e mesas instalados na praça. Uma empresa da região ajuda a cuidar do paisagismo. "Fazemos festas para arrecadar fundos para a manutenção. Durante a seca, tivemos que pagar oito caminhões-pipa para aguar a praça", informa.

O espaço é usado para o lazer e prática de esportes. Um grupo joga vôlei no local, outro realiza treinamento funcional. A praça também recebe concursos de pets. Apesar de apenas três moradores integrarem a comissão responsável pelos cuidados com o espaço, o contador diz que todos se envolvem. "Temos um grupo no WhatsApp em que combinamos os dias de cada um tirar o lixo e trocar os sacos", exemplifica. Se o espaço não tivesse sido abraçado pelo bairro, poderia ser hoje um mocó. "Vale a pena dar as mãos e fazer alguma coisa", garante.

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