A pandemia de coronavírus deverá deixar marcas definitivas no desenho das cidades com a expansão do home office e esvaziamento de escritórios. Se a cidade não souber se planejar, a consequência pode ser a proliferação de mini Detroits, a cidade norte-americana que virou quase fantasma após a fuga de indústrias.

Um dos desafios é como enfrentar a tendência de intensificação da vacância em regiões de escritórios devido à possível migração para o home office ou para um modelo híbrido por alguns setores. Embora haja expectativa de um retorno a parte dos escritórios após a pandemia, estudos mostram grande espaço para que o home office se mantenha em algumas áreas da economia. Um estudo da consultoria McKinsey concluiu que um modelo híbrido, com trabalho remoto de três a cinco dias por semana, poderia ser feito com a mesma eficácia de quem está permanentemente no escritório para mais de 20% da força de trabalho. Com a vantagem de ser bem mais barato para a empresa.

Imagem ilustrativa da imagem Cidades podem ter de lidar com esvaziamento de escritórios no pós-pandemia
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Segundo o estudo, serviços financeiros são a categoria com maior potencial de trabalho remoto no futuro. Um caso emblemático é XP, empresa do mercado financeiro, que anunciou home office permanente e a construção de uma nova sede em São Roque. Antes disso, a empresa mantinha seis andares em um edifício em área expandida do centro financeiro de São Paulo. As regiões das avenidas Faria Lima, Juscelino Kubitschek e Berrini são exemplos de locais com grande oferta de escritórios locados ao mercado financeiro e que devem ser afetadas.

Vendo o esvaziamento da região na pandemia, o arquiteto Matheus Marques Rodrigues Alves, 38, e seus sócios vão fazer um projeto para o próprio prédio onde fica o escritório de arquitetura deles, o Hiperstudio, na avenida Faria Lima. "A gente começou a discutir, porque a gente via a avenida ficando mais vazia, comércios fechando, algumas salas do edifícios vazias", diz ele, acrescentando que, mesmo antes da pandemia, a região já vivia esvaziamento durante a noite. Segundo ele, a cidade tem grande oferta de edifícios mais antigos, de salas comerciais, com grande quantidade de banheiros, que teriam conversão mais fácil. O projeto criado pelo grupo tem módulos de apartamentos residenciais intercalados com escritórios, com acessos independentes entre moradia e escritório, e pequenos espaços de convivências em alguns pontos. Ideias como essa ajudariam a evitar o subaproveitamento da boa infraestrutura das regiões de escritórios.

Se bem aproveitado, o home office pode impulsionar a criação de novas centralidades na cidade, evitando que a população tenha de se deslocar por horas até o trabalho. Embora o trabalho em casa seja ainda mais prevalente entre a população mais rica, há empresas de alguns setores, como o de telemarketing, que já têm migrado para este modelo de trabalho definitivamente.

O urbanista Kazuo Nakano, do Instituto das Cidades da Unifesp, afirma, porém, que há muitas pessoas cuja situação de moradia precária torna muito difícil ficar o dia todo em casa, como no caso da população das periferias.

O urbanista Fernando Tulio, presidente do IAB-SP (Instituto dos Arquitetos do Brasil - São Paulo), afirma que deveria haver um plano para melhorar a residência da população e ao mesmo tempo fornecer locais onde eles pudessem trabalhar próximo de casa.

Tulio exemplifica que parte importante da população não tem nem mesmo acesso a banda larga em casa. "Poderia haver uma política de reforma de moradias precárias e coworkings coletivos a preços acessíveis, além da ampliação do programa de wifi livre, uma agenda para democratizar e garantir condições dignas para o home office", diz.

Se bem feita, essa eventual descentralização poderia aproximar esses pontos da chamada cidade de 15 minutos, conceito que prevê que se tenha a maioria das necessidades a essa distância de casa. Já há alguns condomínios oferecendo coworking - no entanto, esse tipo de oferta ainda não é comum no mercado popular. Nakano acrescenta que, na busca por descentralizar a cidade, é fundamental que isso seja feito a partir da oferta de um transporte melhor.

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