''Vou construir a casa dos seus sonhos''. A promessa feita em 1939 por seo João Antonio Benatto à mulher, Josephina Lourençon Benatto, foi cumprida à risca e está em pé até hoje numa das principais avenidas comerciais de Londrina, a Souza Naves. Na cidade que mais se verticaliza, casas antigas que conservam as fachadas intocadas há décadas - resistem. E a convivência entre as duas épocas parece ser das mais harmoniosas.
O antigo casarão de seo Benatto construído numa área de 1.100 metros quadrados está ao lado de prédios residenciais e comerciais e antigas casas que se transformaram em óticas, butiques, clínicas médicas entre outros estabelecimentos. Assim como a dele, muitas outras residências ainda resistem no quadrilátero central lado a lado com grandes edifícios.
Entretanto, em alguns pontos o comércio e os prédios residenciais começam a se expandir expulsando as primeiras residências que ali se instalaram. Nas últimas décadas isso foi bastante frequente na região das ruas Santos, Belo Horizonte, Espírito Santo, Piaui, Pará. As poucas casas que ainda restam por ali, convivem com vizinhos imponentes como o Arkadia, Comodoro, Costa do Marfim, Jangada.
Semelhante ao restante da cidade, essa região cresceu de forma espantosa. Ali não tem meio termo: as moradias são prédios grandes e modernos (em geral edifícios) ou construções antigas que conservam a mesma fachada há décadas.
''Quando terminarem este prédio da frente, não terei mais sol no meu quintal'', diz Maria Trindade Colomera, que reside ha 63 anios numa casa de madeira da Rua Santos, entre a Espírito Santo e a Alagoas. Bem em frente está sendo erguido mais um espigão com quem ela vai ter que dividir espaço. ''Já vieram muitos corretores e ainda vêm, mas não pagam o que vale pelo nosso terreno'', conta dona Trindade, 91 anos, que se considera a ''dona do pedaço''. Só tinha três casas quando cheguei aqui. Esta rua (Santos) era só mato.''
Na época em que o marido era vivo dona Trindade conta que as construtoras chegaram a oferecer quatro apartamentos pelo terreno de 600 metros quadrados. ''Ele dizia que não era passarinho para viver preso'', lembra ela, que hoje aluga a casa da frente e mora numa edícula nos fundos.
A casa de seo Benatto guarda as características originais do piso ao teto - forro em madeira e cerâmica em forma de mosaico muito usada naquela época. Quatro filhos dele ainda residem no local. Um deles, Omeletino Benatto, conta que quando o pai decidiu construir a casa a mãe ficou ''apavorada'' porque o trecho, que é considerado hoje um dos metros quadrados mais caros da cidade, era conhecido como ''matagal das antas''. ''Isso aqui era só mato'', conta Omeletino, 77 anos, dos quais 65 morando na casa.
''Se nos oferecêssemos R$ 2 milhões pelo terreno, diria que teria que conversar com a família e estudar a proposta, mesmo assim corre-se o risco de não aceitarmos. Temos dó de vender, porque foi muito difícil para o meu pai construir esta casa. Quem comprar o terreno vai colocar uma motoniveladora aqui e derrubar tudo, toda nossa história'', adverte Omeletino
Até dois anos atrás, enfatiza ele, o assédio de corretores era constante no local. ''Ainda vem picareta perguntar se vendemos, mas não nos interessa porque não pagam mais do que R$ 700 mil. Isso aqui é um espólio de 8 irmãos'', completa.
Outro patrimônio familiar está na Rua Santos, onde a família de Ana Rosa Paludetto construiu uma casa de alvenaria em 1961 - no local também funciona uma copiadora. Cercada por prédios, a residência recebe pouco sol. ''Não bate sol nos fundos, só das 15h30 às 16 horas'', conta ela. O terreno tem cerca de 520 metros quadrados e nas últimas avaliações, Ana Rosa disse que os valores oferecidos por clínicas e construtoras não eram atraentes. ''Isto aqui é um patrimônio de sete irmãos. Eles têm vida mais estável que a minha e me deixam morar aqui porque não tenho outro imóvel'', completa, informando que se houvesse uma proposta interessante podia até ser estudada entre a família.

mockup