Casa 1.0 prioriza materiais reciclados
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sábado, 01 de março de 2003
Andréa Lombardo<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Alunos e professores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) estão trabalhando no protótipo de uma casa cuja concepção preza o uso de materiais reciclados e de tecnologias de baixo custo. Na primeira etapa do projeto Casa 1.0 foram construídas três unidades dentro do terreno do Centro Politécnico (campus da UFPR). Uma delas servirá agora de plataforma para incorporar novas soluções ao ambiente construído.
O chefe do Departamento de Design da UFPR e engenheiro civil, professor Agnaldo dos Santos, explica que o projeto Casa 1.0 foi iniciado no ano passado por iniciativa do programa Construbusiness, um fórum estadual que reúne 36 instituições ligadas ao setor da construção, indústria, governo e universidades. O objetivo é desenvolver projetos de habitação de interesse social. O Centro de Integração de Tecnologia do Paraná (Citpar) aportou recursos, a UFPR desenvolveu os parâmetros de concepção e construiu os três protótipos e a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC) ficou com a avaliação do sistema.
A preocupação maior do projeto na primeira etapa, destacou Santos, foi a sustentabilidade desenvolver uma casa que pudesse ser construída por comunidades de baixa renda em regime de mutirão, usando matéria-prima local. As casas construídas no Centro Politécnico utilizaram madeira de reflorestamento tratada e telhas produzidas a partir de uma mistura de resíduos do setor siderúrgico e cimento.
Também foram propostas soluções hídricas que reduzissem o consumo de água, como é o caso do vaso sanitário com caixa de descarga de seis litros. As convencionais gastam entre 10 e 12 litros de água. Outras pesquisas já estão sendo realizadas para incorporar no protótipo outras soluções de otimização dos recursos hídricos. Uma delas é desenvolvimento de um sistema de captação da água da chuva.
Segundo o professor, há ainda estudos voltados à conceituação térmica do imóvel para reduzir os gastos de energia com uso de sistemas convencionais de aquecimento ou ventilação. ''A idéia é desenvolver soluções que melhorem o conforto, utilizando materiais reciclados e sem prejuízo ao custo'', complementou. Vai ser testada ao longo do ano, a utilização de placas feitas com embalagem tetra-pak embaixo do telhado como superfície refletora para evitar a entrada de calor.
Alunos do curso de Design, relatou Santos, desenvolveram ainda soluções mobiliárias para população de baixa renda, usando materiais reciclados. A UFPR conseguiu R$ 276 mil, recursos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), do Ministério da Ciência e Tecnologia, para a construção do Núcleo de Design e Reciclagem. Através desse centro serão desenvolvidos, a partir desse ano, produtos para serem incorporados à casa-protótipo, usando tecnologias de reciclagem. Um exemplo são os trincos de porta confeccionados com plástico reciclado. No ano passado, um grupo desenvolveu um tanque e um vaso sanitário que usam argamassa de cimento e resíduos de borracha (pneus). A idéia é fazer a transferência de tecnologia, em parceria com o Sebrae, para que pequenas comunidades montem suas próprias empresas de reciclagem.
Outras quatro casas foram construídas em terreno da Cooperativa de Habitação (Cohab), no Bairro Novo, em Curitiba. Para Santos, a percepção da população de baixa renda é de que o produto reciclado tem baixo valor agregado. O desafio do projeto é mostrar justamente o contrário.
Santos avalia que o Brasil já tem tecnologia suficiente para a reciclagem. O que falta é a inclusão do aproveitamento de resíduos nos currículos acadêmicos; um maior interesse por parte dos profissionais em incorporarem reciclados em suas concepções; desenvolver na população a cultura de separação do material reciclável e que o governo estabeleça uma legislação mais rigorosa quanto a reutilização de materiais e otimização de recursos.


