‘Tesouros’, enxoval, roupas de inverno, brinquedos, trecos e coisas. Tudo pode ser guardado dentro de um baú. O baú não é prepotente mas tem consciência do seu charme. Em qualquer lugar, além de guardar, ele decora; chama a atenção como uma peça diferente.
Mas é a sua multiutilidade que funciona como trunfo e o mantém sempre atual. Além de guardar coisas, o baú pode ser transformado em apoio. Dependendo do formato, faz as vezes de mesinha de canto ou de centro.
Com bebidas, ele assume a função de bar e seu tampo vira uma bandeja fixa, apoio para os copos e gelo. Aos pés da cama, serve de banco e ao lado, é um criado-mudo. Motivos não faltam para ter um baú ou mais em casa. Então, porque ele não é visto em profusão?
O preconceito de peça velha – coisa da vovó – e as versões de pouca qualidade são alguns dos motivos apontados pelo artesão Dorival Corrêa para a desvalorização do baú.
‘‘As pessoas se desacostumaram a pensar no baú’’, afirma. Dorival Corrêa atribui a pouca utilização de baús também ao preço e à qualidade. Diz que as peças bonitas e resistentes costumam ser caras e as mais acessíveis não costumam oferecer a resistência necessária a este tipo de peça.
Corrêa quer mudar esta concepção e está colocando no mercado baús com a ‘‘solidez’’ das peças feitas antigamente. Feitos em madeira, os baús do artesão repetem as linhas tradicionais oferecendo variedades de formas que vão da arca ao tonel (redondo). O destaque fica com o acabamento perfeito e os detalhes em couro, taxas e metal.
Filho de um especialista em confeccionar calçados ortopédicos sob medida e de uma bordadeira, desde criança Corrêa se aventurava no artesanato. A paixão pela marcenaria também começou cedo. Era ele quem fazia seus caminhões, carrinhos de rolemã e ainda quebrava o galho de vizinhos fazendo prateleiras.
Quando, no início do ano, viajou para o Mato Grosso do Sul em visita a parentes, ele já havia feito um baú para mãe e outro pequeno para a filha de 11 anos. Mas a idéia de transformar o hobby em trabalho se solidificou mesmo no Mato Grosso do Sul onde, segundo ele, os baús são muito requisitados.
Da idéia à pratica foram quatro meses de trabalho e desenvolvimento das técnicas e maquinário especial. ‘‘Os baús nunca saíram de moda porque são úteis e bonitos; são poucos os que não gostam desta peça porque ela traz, além da funcionalidade, toda uma história, uma cultura’’, analisa.
Dorival Corrêa não usa compensados nem lâminas nos seus baús. As peças foram pensadas para facilitar ao máximo o seu uso. O artesão desenvolveu alças que facilitam movimentar o baú sem machucar as mãos. A madeira é tratada de forma a adquirir uma textura lisa e agradável ao tato. Entre as opções estão os baús inteiramente forrados em veludo por dentro.
Embora pretenda continuar trabalhando o visual do baú tradicional, a proposta do artesão é atualizar o produto. Para isso, Corrêa aposta nos acessórios sem ferir a estética tradicional. Rodinhas, forros removíveis e laváveis são alguns dos pontos previstos para dar mais conforto e praticidade aos baús.