A zeladora Maria José de Jesus, de 38 anos, quase pede licença para entrar em seu banheiro. Dentro dele, um chuveiro e um vaso sanitário ocupam todo o espaço do minúsculo cômodo. Nos momentos do banho, a situação fica ainda pior. Junto com ela, são obrigados a entrar um rodo e um pano. ‘‘Não tenho espaço nem para colocar um box. Molha todo o banheiro’’, diz ela, que mora há 12 anos em uma quitinete na Consolação.
A operação demanda uma verdadeira ginástica. Maria José entra no banheiro, encosta todo o corpo na parede e fecha a porta, que passa raspando pela privada. O banheiro era ainda menor – tinha uma pia para lavar as mãos embaixo do chuveiro -, mas foi adaptado. Onde deveria ser a cozinha, Maria colocou um espelho e a pia. ‘‘Queria ter um banheiro grande, bem arejado, com banheira, box e bidê.’’
Maria José faz parte de um grupo de pessoas – cada vez maior – que sonham ter no banheiro um espaço confortável e relaxante. Mais que isso, sonham ter uma banheira. Segundo uma pesquisa realizada com 1.090 pessoas via internet, pelo Núcleo de Estudos sobre Habitação e Modos de Vida, da Universidade de São Paulo (USP), 71% dos entrevistados desejam ter uma banheira.
Além de espuma, sais de banho aromáticos, pétalas de rosas, velas e todo o clima associado às banheiras, tão divulgado em filmes e novelas, o brasileiro quer um visual bonito na hora íntima. Dos entrevistados, 56% gostariam de ter uma bela paisagem da janela de seu banheiro e 40% desejam ter um jardim interno nesse cômodo.
O desejo vem acompanhado da tendência de se passar cada vez mais tempo dentro de casa, provocada pela falta de segurança nas ruas, e da individualização do banheiro. Se antes eles eram grandes e serviam à família inteira, hoje diminuíram de tamanho e são individuais. Há quase um banheiro para cada membro da família.
‘‘Essa coisa de ter mil banheiros é bem brasileira’’, diz o decorador Fernando Piva, de 30 anos. O que possibilita conferir um clima mais pessoal a cada um deles. ‘‘As manias de cada um estão colocadas nos banheiros’’, completa o arquiteto Maurício Chianca, de 37 anos.
Arquitetos e decoradores já perceberam a tendência de consumo e passaram a transformar o banheiro em um ambiente agradável e sofisticado, mesmo porque, como diz o decorador Fábio Arruda, esse é o lugar onde as pessoas começam e terminam seu dia. O que Piva completa: ‘‘A primeira coisa que faço ao acordar é tomar um banho e fazer a barba. Enquanto isso, fico pensando no meu dia. É um momento de reflexão’’.
Chianca encarou com espanto o primeiro pedido de um cliente para colocar dois vasos em um banheiro. Hoje, não fica mais surpreso. ‘‘Algumas pessoas não querem compartilhar o mesmo vaso. Outras gostam de ficar sentadas conversando’’, diz ele. ‘‘É o máximo da intimidade.’’
Arruda sugere outros usos para o cômodo. ‘‘Por que não encará-lo como um espaço onde se namora?’’ Ele acredita que o banheiro pode ser um lugar sensual, dependendo do jogo de espelhos que o compõe. ‘‘Na época dos nossos pais, ter um banheiro charmoso dava aquela impressão meio cafajeste de banheiro de motel. Hoje, não.’’ Prova disso é o crescente pedido para colocar duas duchas no banheiro.
O banheiro dos sonhos, para começar, não deve ser chamado de banheiro, que dirá de WC. Ele deve ser tratado como ‘‘sala de banhos’’, pois é esse o conceito que os decoradores têm empregado. Banheira é item indispensável nesta concepção. ‘‘Elas tinham caído em desuso, mas de dez anos para cá voltaram como uma tendência forte, especialmente as com jacuzi’’, diz Arruda, que decorou o banheiro da atriz Patrícia de Sabrit.
Além da banheira, acompanham duchas, das mais variadas potências, para que o banho também seja o momento de massagem. Mas nada de duchas agregadas à banheira, aconselha o arquiteto Mauro Martins, de 36 anos. As plantas também são unanimidade nos novos projetos de decoração. ‘‘Elas conferem mais aconchego, mas é importante que o banheiro tenha iluminação natural e que a planta seja resistente à umidade’’, diz Arruda.
A sofisticação é conferida pelos acessórios. ‘‘Antes as pessoas compravam os itens básicos de um banheiro e depois pensavam nos acessórios. Hoje, existe a preocupação que eles estejam integrados para compor um ambiente harmonioso’’, conta o diretor de marketing da Deca, José Roberto Guide. Os acessórios com maior procura são o porta-toalha de argolas e a papeleira. Os espelhos também são bastante usados como truque para ‘‘aumentar’’ o espaço.
Levar uma revistinha para o banheiro não precisa ser mais motivo de vergonha. No banheiro multiuso já há revisteiros, como numa sala de estar, e até mesmo poltronas, em ambientes maiores. Para isso, é importante ter um ambiente bem iluminado, de preferência com luzes amareladas. Mesmo em tempos de apagão, nada de luzes fluorescentes ou incandescentes. Chianca só usa luz alógena, que reproduz a luz do sol.
Aparelhos de televisão, telefones e rádios também marcam presença nos projetos decorativos. ‘‘É bastante comum entre empresários e solteiros, que querem acompanhar o noticiário enquanto tomam banho’’, informa Arruda.
Minimalismo é a palavra de ordem nos banheiros. Ambiente clean, com pouco rebuscamento, linhas retas, tons claros e paredes sem revestimento. ‘‘Meu banheiro tem uma simetria grande, é tudo reto, combina com minha personalidade’’, diz Piva, referindo-se ao banheiro de sua casa, premiado com um segundo lugar no concurso Banheiro dos Sonhos Deca.
Outra tendência é a de deixar objetos pessoais, como a escova de dentes, à mostra. As cubas embutidas na pia vêm sendo substituídas pelas de apoio (que ficam sobre a bancada), segundo Guide. Para Piva, elas resgatam o ambiente de fazenda, embora sejam muito mais práticas e higiênicas que as tradicionais bacias. ‘‘O retrô também está na moda’’, diz Piva.

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