‘‘Serão servidos com bandejas e copos de ouro; aí, as almas lograrão tudo quanto lhes apetecer, bem como tudo que deleitar os olhos;...’’. Versículo 71 da 43ª Surata (capítulo) do Alcorão Sagrado que trata sobre ‘‘Os Ornamentos’’.
Uma decoração rica em detalhes e objetos artisticamente trabalhados. Esse é o estilo árabe de compor a casa. O dourado predomina na preferência das cores, seguido por outros tons fortes e vibrantes como o vermelho e o verde. Além das cores, outro destaque são as sedas e os tapetes que dão sofisticação e exuberância aos ambientes. O estilo, que aos olhos dos ocidentais pode parecer extravagância, é a ‘‘expressão da alegria e da hospitalidade do povo’’, explica o sheik Ahmad Saleh Mahairi, supervisor do governo da Arábia Saudita para Assuntos Islâmicos no Brasil.
O respeito pelas tradições e a cultura desse povo foram evidenciados na novela ‘‘O Clone’’ exibida pela Rede Globo. A autora Glória Perez, segundo o sheik, conseguiu transmitir, com fidelidade, aspectos da cultura islâmica. Ele ressalta que alguns exageros foram cometidos, como o excesso de velas.
As casas dos personagens Said e Ali, de acordo com o sheik, são exemplos de moradias antigas e de famílias tradicionais em países como Marrocos, Síria, Líbia e Tunísia. A arquitetura é marcada pelo uso de azulejos e fontes.
Os costumes árabes, explicou sheik Mahairi, seguem as orientações do Alcorão – o livro sagrado da religião islâmica, que preza pelo bem estar das pessoas. Um detalhe curioso é a preservação da figura da mulher. Para isso, as casas são construídas em dois ambientes: a casa do homem e a casa da mulher ou da família. Os dois locais devem estar equipados com os mesmos ítens de conforto. Os hóspedes são recebidos na casa do homem, que ocupa o primeiro espaço da residência, e não têm acesso à casa da família. Essa forma de reservar à mulher um lugar à parte também pode ser vista nas mesquitas. Os locais de oração são separados por alas e cortinas leves.
O gosto pelo dourado está intimamente ligado ao uso do ouro. ‘‘Não haviam bancos para que os dotes das esposas pudessem ser depositados, assim, o dinheiro era investido em jóias’’, explicou. Até hoje não existe nos países árabes lojas de bijuterias. O dourado que se vê nas lojas tanto nas peças de uso pessoal quanto na decoração são feitas em ouro puro. Desde que a novela está sendo exibida, os países árabes registram um crescimento na venda desses artigos. ‘‘Dubai (capital dos Emirados Árabes Unidos, uma das grandes reservas de petróleo do mundo) já vendeu cerca de 5 toneladas de jóias’’, revelou o sheik.
A cor do ouro está presente também nos tecidos utilizados nas almofadas, nas toalhas de mesa e nas vestimentas das pessoas. O verde e o vermelho se destacam não só na opção de cores da casa mas das bandeiras desses países. As capas do Alcorão, por exemplo são em verde escuro com desenhos em arabescos dourados.
A riqueza de detalhes caracteriza peças da decoração como as bandejas, porta-Alcorão, caixas, porta-jóias e até mesmo mesas e banquetas. Os artesãos abusam das técnicas da marchetaria e compõem trabalhos exuberantes, tendo a madrepérola e o ônix como principais matérias-prima.
A tradição e o dom de bem receber, segundo sheik Mahairi, são demonstrados pelo número de pratos, copos, talheres e bandejas que as famílias possuem. Grandes armários para expor essas peças, feitas especialmente em ouro, prata e porcelanas ilustrados com motivos árabes, integram os ambientes das casas. O uso de muitos tapetes persas dão aconchego e sofisticação aos espaços e indicam ainda a situação das famílias. Outra marca da tradição das famílias é expressa pela presença de espadas de ouro e prata fixadas na parede. ‘‘Elas simbolizam que os antepassados participaram de lutas’’, diz o líder religoso.
O mobiliário árabe também possui peças diferenciadas das do ocidente, explica o sheik. ‘‘Utilizamos sofás de chão, com muitas almofadas’’, revela. As cortinas são peças imprescindíveis na decoração – o uso é orientado pelo Alcorão. A leveza dos tecidos, especialmente as sedas, auxiliam na preservação da mulher e da intimidade dos ambientes.
Mais do que ostentar a tradição e a posse das famílias ou ainda seguir preceitos religiosos, a decoração árabe prima pelo bem estar das pessoas. Prova disso é a qualidade das peças, a maciez e a durabilidade dos tapetes persas, o conforto oferecido pelos sofás e suas almofadas ou mesmo pela leveza e o colorido dos ambientes proporcionados pelas cortinas. Rebuscado ou ultrapassado dentro dos valores classificados como contemporâneos, o estilo nada mais faz do que retratar a história desse povo.

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