A seguir: a habitação do futuro
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de outubro de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 
Arranha-céus, pequenos apartamentos, grandes ''lofts'', aeroportos, museus, teatros, igrejas, terminais ferroviários e de metrô, bibliotecas, centros de compras, planos urbanísticos construídos, em construção ou ainda no papel, na maquete ou no computador, mas programados para breve , em todos os cantos do mundo: é destes projetos, é desta matéria-prima que é feita ''Next 8 Mostra Internazionale di Architettura'', inaugurada em setembro em Veneza. É este o sentido desta edição da mais importante exposição européia de arquitetura promovida pela Biennale e que vai receber visitantes só até o dia 3 de novembro. Ela é dedicada à exploração de alguns destes próximos ''next'' edifícios, arquitetos, lugares que direta ou indiretamente, mediata ou imediatamente, vão transformar nosso cotidiano.
A proposta do crítico e curador Deyan Sudjic é oferecer um panorama daquilo que será a arquitetura na próxima década. Quem a fará e com que materiais será construída. Percorrendo todo o itinerário da exposição, projetado pelo arquiteto John Pawson, parece fora de dúvida de que não existe nenhuma espécie de ''convite'' para julgar a qualidade daquilo que se vê. O que torna o trajeto ainda mais fascinante é a possibilidade que o visitante tem quanto a reconhecer a intenção do arquiteto, o processo criativo em andamento, a função social da obra. Distante das representações fantásticas e virtuais que sempre aproximaram a arquitetura do universo das instalações de arte, mais com resultados programáticos do que pragmáticos, este ano a exposição ''Next'' enfatizou sobretudo a qualidade da forma e dos materiais da arquitetura construída. Vale dizer, ressaltou a originalidade das idéias e os novos meios para materializá-las. Menos representações virtuais, mais arquitetura materializada.
Novos materiais, novas técnicas construtivas. Desta síntese os arquitetos contemporâneos, das mais diferentes nacionalidades, estão extraindo uma nascente qualidade táctil e visual, e o resultado desta experimentação tem forte presença na Bienal de Arquitetura, desde o trabalho com alumínio e concreto vitrificado do japonês Toyo Ito (prêmio Leão de Ouro pela carreira) ao elegante material de revestimento usado pelos suíços Jacques Herzog e Pierre de Meuron, via design digital.
A mostra ''Next'' se estende por dois amplos e privilegiados espaços, distantes apenas 200 metros e dez minutos de aprazível caminhada um do outro, e como sempre garantidos à Biennale pela prefeitura de Veneza, permitindo uma fusão única entre passado e presente. O primeiro por ordem de entrada global em cena e por consequência por ordem de visita é o Arsenale, constituído por seculares construções que no passado abrigaram redutos vitais de infra-estrutura (fábricas de cordas, armas e munições) da defesa marítima da Republica Sereníssima como foi um dia conhecida a cidade. Sob o teto de majestosa estrutura que cobre o Arsenale estão 150 projetos inéditos e assinados por uma centena de profissionais, consagrados ou emergentes.
Estão divididos em 11 seções, cada uma delas dedicada a uma forma particular de construção ou tema arquitetônico, todas obedecendo a um rigoroso critério estético-funcional, sem que isso tenha ''hermetizado'' o evento. Pelo contrário: o curador Sudjic confeccionou uma exposição rica, simultaneamente espetacular e simples, capaz de empolgar mesmo o grande público não iniciado nas especificidades da matéria.
O espaço complementar são os pavilhões nacionais nos jardins da Biennale (Giardini), onde idéias de 36 países descortinam o futuro imediato da arquitetura. No pavilhão do Brasil, as concentrações faveladas receberam alternativas de humanização da miséria através da proposta ''Favelas Upgrading'', com tentativas de solução de problemas de infra-estrutura. E no pavilhão dos Estados Unidos, todo dedicado ao tema ''WTC: Passado, Presente e Futuro'', um levantamento completo das origens das torres, a documentação fotográfica do ''day after'' e as alternativas e possibilidades a partir do ''ground zero'', o marco zero.


