A restauração faz milagres
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de novembro de 2000
Célia Baroni De Londrina 
Restauração e móvel antigo parecem um binômio inseparável, não é? Sempre foi assim porque a restauração é uma técnica que exige um profissional especializado, conhecedor da história do mobiliário e da decoração nos mínimos detalhes. Por isto, quando o móvel é usado ou velho, fala-se no máximo em recuperação, em reforma.
Mas este conceito está equivocado e precisa ser mudado. Ele age como uma forma de desvalorizar a peça, defende Luiz Sibim, especialista em restauração de móveis. Atuando na área há dez anos, ele atende antiquários de todo o Brasil, principalmente São Paulo e Curitiba. O objetivo do seu projeto de trabalho é incentivar e ajudar a valorizar as peças usadas e velhas.
Sibim lembra que embora o Brasil possa falar em móveis antigos, a maioria de seus municípios é ainda muito jovem. Com menos de 100 anos, a maioria das peças encontradas nos município é usada ou velha termo utilizado para móveis com mais de 50 anos de idade. Isto não significa que são de segunda mão; menos bonitas ou pouco importantes.
Usadas ou velhas não são adjetivos depreciativos. Estas peças carregam informações sobre o perfil de pessoas queridas e até pioneiros, sua descendência e gosto. O que tem de mudar é o conceito de valor destas peças, diz.
O valor histórico dentro do contexto da cidade e região, são incontestáveis para o restaurador. Mais do que isto; a peça que pertenceu a um parente tem um valor inestimável : o afetivo. E todas acentua exigem a mão de um restaurador profissional para preservar sua forma original.
Normalmente as peças usadas e velhas são réplicas de móveis antigos ou uma união de vários estilos, com detalhes de épocas diferentes. Justamente por isto, Sibim afirma que elas exigem um cuidado redobrado. Cada detalhe tem de ser avaliado e situado na sua origem para ser reconstituído sem prejuízo da estética do móvel. Isto significa o respeito ao tipo de madeira, técnica de entalhe e tinturas utilizadas no feitio da peça.
O modo de ver do brasileiro já está mudando. As pessoas estão começando a valorizar o móvel da vovó, investindo na sua recuperação e o que é mais importante; estão usando-o como ponto forte da decoração de sua casa, conta.
A mudança ainda sutil está levando muita gente a tirar peças esquecidas nos celeiros e quartos de despejo das fazendas e casas. E quando isto acontece, avalia, elas remexem na sua história pessoal e enriquecem o próprio cotidiano e o da família. O móvel é uma referência concreta da história familiar e uma lembrança permanente de que a pessoa tem um passado sobre o qual construir o seu futuro, reforça.
O móvel usado também merece a mesma atenção. Além de, muitas vezes ter uma estrutura em madeira sólida, ele pode ser transformado em novo. Um trabalho bem feito, pode acrescentar ou suprimir detalhes conferindo linhas mais modernas e adequando o móvel à utilidade desejada por quem comprou.
Sibim traça uma ligação entre o patriotismo no brasileiro e a valorização dos móveis usados e velhos. Por circunstâncias históricas e principalmente econômicas, o brasileiro foi levado a lamentar o passado, trabalhar o presente e viver do sonho do futuro analisa. Só recentemente, diz, o Brasil passou a ser propriedade do brasileiro.
O quadro, diz, começou a mudar recentemente com a valorização da nossa cultura e, consequentemente, do artesanato regional e de nossas belezas. Para ele, a valorização da história pessoal e do país, vem junto com esta revolução cultural.
Sibim retornou recentemente de mais um curso de restauração de móveis na Itália, onde pôde aperfeiçoar ainda mais o seu trabalho. A restauração é uma arte antiga que se enriquece constantemente com a descoberta de novas técnicas e produtos que permitem uma finalização cada vez mais perfeita. Daí a importância de estar se aperfeiçoando constantemente, afirma.


