A avenida onde bate o coração da Zona Norte
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sábado, 13 de setembro de 2003
Lúcio Flávio Moura<br> Reportagem Local 
O pulsante comércio da Avenida Saul Elkind está com as portas cerradas, mas ninguém se incomoda. É tarde de domingo. Ao invés das compras e dos compromissos do dia-a-dia, da espera no balcão e da luta contra os ponteiros do relógio, a via abriga uma movimentação bem mais espontânea.
Depois do almoço e do descanso, é hora de conferir o ''footing'', o desfile de carros, motos e pessoas que faz a alma da Zona Norte se materializar por algumas horas.
É inverno, mas o sol dá uma colher de chá e faz o calor acumular desde a manhã. Se refrescar é preciso. As sorveterias estão cheias. Nas lanchonetes, o suor das garrafas de cerveja molham as mesas de plástico.
Entre os frequentadores, há casais sem maiores pretensões, há famílias inteiras que preferem o agito ao estilo bem interiorano do que a postura passiva diante dos programas de TV, mas não há como negar: nas tardes dominicais da Saul Elkind o que predomina é a juventude e seu quase obrigatório hábito de ''xavecar''.
Sentado no degrau de uma porta comercial junto com um grupo de amigos, o auxiliar de impressor e estudante secundarista Maisson David Ferreira da Silva, 18 anos, faz parte da legião de expectadores, aqueles que aparentemente não ''estão fazendo nada na avenida''. Ao lado, se houve gargalhadas. O motivo é uma gravação em forma de buzina: ''Sai mocréia''.
Maisson vai se explicando: ''Venho ver o movimento, as garotas'', admite. Enquanto fala, um número impressionante de motocicletas circulam nas duas mãos. As mais possantes são acompanhadas pelo grupo como uma bolinha em um jogo de tênis. O barulho não perturba. Causa admiração.
''Elas olham mais para quem está dentro dos carros'', lamenta. O adolescente, morador do Maria Cecília, faz parte do Grupo de Jovens Essência de Deus, e já faz planos para quando à noite cair. ''Vou tomar banho e vou para a igreja'', conta.
Com a declaração, Maisson busca demonstrar que é um jovem que mantém um certo equilíbrio entre as ambições materiais e espirituas. ''Um dia vou ter um carro, mas primeiro tenho que procurar Deus''. Depois da frase, o grupo faz uma constatação: o motorista que havia passado sozinho na ida, está levando duas garotas no retorno.
Mulheres maduras também topam a exposição vespertina e a buscam companhia, por mais rápida que seja. Estão ligeiramente produzidas, preparadas para os olhares ociosos dos homens. ''Ah! Os gatos! Venho ver os gatos'', se justifica a vendedora de bijuteria Marta Maria da Silva, 33, moradora Conjunto João Paz.
Marta impõe seu ritmo na caminhada. O objetivo é conseguir um lugar para dançar no final da programação. Por enquanto, ''ainda tem muita gente para ver'' e ela segue sem um destino exato. A única exigência é não escapar do burburinho.
Ao lado dela, a auxiliar de costura Elaine Alfredo da Silva, 23, está decidida a continuar a trajetória e apressa a amiga. No entanto, ela se manifesta quando perguntada sobre se os garotos com carros são mais valorizados na Zona Norte. ''Imagina, não tem nada a ver. Sendo um cara legal, já basta''.
A empregada doméstica Sônia Aparecida Costa, 25, moradora do Conjunto Semiramis Barros Braga, se apressa em concordar com a amiga e se comporta como se tivesse um compromisso inadiável. Explica o ritmo acelerado ''porque quer percorrer a avenida toda'' (na verdade, o trecho de 500 metros onde se concentra grande parte da movimentação) antes de escurecer. ''A gente tem medo da violência'', diz, mudando a expressão, antes sorridente. ''Tem muita gente armada por aqui''.
O comentário de Sônia tem o peso de uma caixa de munição. Da angústia da empregada doméstica surge um retrato mais real, que concorre com o cenário aparente, o de clima amistoso da Saul Elkind, a avenida que comporta os valores nobres de uma pequena cidade, mas que não resistiu, imune, ao crescimento de Londrina.
''Não gosto que minhas filhas venham aqui à noite'', diz com autoridade a mototaxista Vanilda Moraes, moradora do Luís de Sá, que há seis anos trabalha na avenida e sabe como poucos as transformações ocorridas no local na virada do século. ''Aqui sempre teve movimento. Sempre foi agitado. O que mudou é a violência, é o número de pessoas que estão com uma arma escondida'', lamenta. As filhas Daniele, 20, e Daiane, 16 anos (ela tem outro filho. Douglas, de 6) são desaconselhadas por uma mãe que conhece todos os perigos da região e que por precaução só circula durante o dia. Seus clientes são pessoas atarefadas, que vão ao centro em um trajeto de apenas 15 minutos apenas eventualmente. ''A maioria das pessoas resolvem seus problemas por aqui''.
Depois do almoço é hora do footing: desfile de carros, motos e pessoas; acima as amigas Marta, Elaine e Sônia, preparadas para os olhares ociosos e, ao lado, a mototaxista Vanilda Moraes, preocupada com a violência


