Zona de distensão: Inferno ou paraíso?
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 29 de setembro de 1999
Por César García 
SAN VICENTE DEL CAGUáN, Colombia (AE-AP) - Dependendo de com quem se converse, esta zona de distensão do sudoeste colombiano pode ser um inferno ou um paraíso.
O que ocorreu aqui desde 7 de novembro de 1998, quando o exército colombiano evacuou suas tropas para facilitar as negociações de paz com a guerrilha, tem características distintas para os bandos em conflito e para seus habitantes.
"Esta é uma zona que não se parece com o resto do país. Depois do despejo da força pública e da polícia há uma tranquilidade que não se conhecia", disse à Associated Press Simón Trinidad, comandante do bloco Caribe das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e um dos delegados da guerrilha para a mesa de negociações.
Segundo Trinidad, a guerrilha integrou-se à comunidade, trabalhou com ela em obras de desenvolvimento social e "mostramos atos de paz, pequenos, mas muito significantes".
Esta visão idílica do que ocorre em San Vicente del Caguán não é compartilhada por algumas autoridades colombianas. O procurador-geral Alfonso Gómez Méndez protestou porque a guerrilha expulsou seus fiscais da zona de distensão e a justiça do estado foi substituída pela justiça revolucionária das Farc.
"Sem juízes, a situação é muito complexa. Nós, como estado, atuamos sob a constituição, enquanto a guerrilha não respeita nenhuma legislação", explicou José Emel Medina, diretor de um escritório municipal que presta assistência técnica aos agricultores.
Execuções sumárias de supostos infiltrados ou agentes paramilitares, aumento dos cultivos de coca e negociações para a libertação das centenas de pessoas que estão sequestradas pela guerrilha são algumas denúncias de atos delitivos que ocorrem na zona de distensão de 42.000 quilômetros quadrados na região selvagem do sudoeste da Colômbia.
Segundo a fundação País Livre, que luta contra o sequestro, pelo menos 16 pessoas sequestradas em Bogotá e outras cidades foram levadas pelas Farc à zona desmilitarizada, de onde a libertação é negociada.
Ante movimentação suspeita de dinheiro, provavelmente destinado ao pagamento de resgates de sequestrados ou dos impostos cobrados dos narcotraficantes pela guerrilha, o Banco Ganadero - o único que opera aqui - suspendeu movimentos efetivas de pessoas físicas e só aceita transações com empresas legalmente estabelecidas.
"Bloquear as transações bancárias em nível nacional nos trouxe muitos problemas. Nos sentimos bloqueados. Este município é como uma pequena Cuba", disse à AP Medina. Ele acrescentou que aqui a autoridade é exercida pela guerrilha e por isso "é preciso consertar com ela as obras que se podem fazer".
Segundo o acordo para a criação da zona de distensão, a autoridade dos municípios é exercida pelo prefeito. E a guerrilha assegura que respeita sua autoridade, mas a realidade parece ser diferente.
No domingo 19 de setembro, foi assassinado Marco Emilio Londoño, prefeito de Vistahermosa, outro dos cinco municípios da zona desmilitarizada, que estava refugiado em Villavicencio, pois recebeu ameaças das Farc. Em um comunicado, a guerrilha rechaçou toda responsabilidade nesse crime e o atribuiu aos paramilitares ou aos agentes do estado.
Tanto o governo quanto a guerrilha estimam que há desinformação sobre o que ocorre na zona de distensão, alimentada por aqueles que não desejam o êxito do processo de paz.
"Às vezes há desinformação na Colômbia e na comunidade internacional sobre os verdadeiros avanços do processo de paz. Seria bom que antes de criticar, sem conhecer a realidade, fossem ouvidos os habitantes de San Vicente para que saibam da construção de espaços de tolerância, que diminuiu a criminalidade", afirmou o Alto Comissário para a Paz, Victor G. Ricardo.
"Acabou o temor à presença da guerrilha aqui, um temor infundado e estimulado pelos inimigos do diálogo e do entendimento", manifestou Simón Trinidad.
No entanto, o temor à guerrilha forçou o exílio de muitas pessoas, especialmente jovens que não querem ser recrutados pelos rebeldes. Segundo o funcionário municipal Medina, cerca de 400 pessoas, a maior parte estudantes, saíram de San Vicente nos últimos 10 meses.
Apesar das dificuldades do processo e das críticas de diversos setores ao poder exercido pela guerrilha na zona de distensão, o governo de Andrés Pastrana continua apostando no êxito do processo de paz.
"O processo de paz está tomando força", disse à AP o comissário Ricardo, depois de um acordo, acertado sábado passado
sobre a necessidade de uma comissão de observadores internacionais, que era um dos impasses para iniciar as negociações.
As FARC, que iniciaram há 35 anos a insurreição armada contra o estado colombiano, não desejam nenhum tipo de presença externa
pelo menos na fase inicial de diálogos. E neste ponto o governo teve de ceder para salvar o processo de paz.


