Zimbábue comemora aniversário de um fracasso Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 17 (AE) - Há vinte anos, no dia 18 de abril de 1980, o Zimbábue, antiga Rodésia, conquistou sua independência. Aniversaria então, mas aniversário de um fracasso pois, hoje, o mesmo Zimbábue, governado pelo mesmo dirigente, Robert Mugabe (que foi o chefe da guerrilha radical contra o poder branco) está em pleno declínio.
Mugabe, de repente, desencadeou uma extraordinária ofensiva contra os fazendeiros brancos: estimulou os veteranos da "guerra da independência" a se instalarem nas belas propriedades dos brancos.
Resultado: um fazendeiro assassinado de maneira ignóbil. Outros fazendeiros perseguidos, espancados, feridos.
O fracasso é ainda maior porque o delírio desses dias, programado por Mugabe, vai exatamente no sentido inverso das promessas que o mesmo Mugabe havia feito, há 20 anos, na noite da independência.
Em 1980, os colonos brancos que haviam submetido durante tanto tempo a Rodésia a um regime feroz e injusto (até Londres se agitou) estavam prontos para "fazer as malas", convencidos de que o poder de Mugabe se vingaria deles. Ora, nada disso aconteceu. Muito pelo contrário. O primeiro discurso de Mugabe, em 1980, foi de harmonia, de perdão. E ele foi tão convincente que os fazendeiros brancos cancelaram as reservas de vôo que haviam feito para Londres ou Sydney. Além disso, como a Rodésia era um país rico, sólido, tudo levava a crer que a descolonização seria, nessa parte da áfrica, um enorme sucesso.
Ora, 20 anos depois, está à deriva: 50% de desempregados, 60% de inflação. E o programa de "reforma agrária", que era a "ponta-de-lança" de Mugabe, jamais se realizou: hoje, como ontem, todas as terras férteis continuam nas mãos dos brancos. 4 mil fazendeiros brancos exploram 30% das terras do país, e as melhores terras. Mugabe foi incapaz de redistribuir as terras.
Foi nessa situação lamentável que Mugabe inadvertidamente estimulou os veteranos da guerra a ocuparem à força fazendas de brancos. E mesmo após a morte de um desses fazendeiros, Mugabe reiterou sua palavra, enquanto seu vice-presidente, Joseph Mzika
mais moderado, ao contrário, havia tentado impedir que os veteranos cometessem o irremediável.
Essa incapacidade de Mugabe executar seu programa de "redistribuição de terras" levou a uma violenta desaprovação de sua população. O desastre econômico não levou a nenhum remanejamento. O exterior se afastou do Zimbábue: o FMI e o Banco Mundial interromperam suas subvenções em razão da gestão rocambolesca de Mugabe. Em fevereiro, Mugabe, durante tanto tempo "o herói", sofreu sua primeira grande derrota quando o "não" triunfou em um plebiscito. Um partido de oposição, o Movimento pela Mudança Democrática fortaleceu-se. Mugabe, então, perdeu seu sangue-frio e lançou sua campanha.
Pensa-se em uma outra campanha inteiramente diferente, mas lançada outrora por um outro velho chefe que sentia seu poder se deteriorar: Mao Tsé-Tung, quando inventou a terrível "Revolução Cultural" que se traduziu em um recuo da China e na morte de milhões de chineses. Como Mao Tsé-Tung, Mugabe, esse outro marxista, tenta salvar seu poder em declínio abrindo a caixa de Pandora - essa caixa cheia de ódio e de rancor dos miseráveis negros contra os ricos fazendeiros brancos.
No momento, estão longe das fúrias sangrentas da "Revolução Cultural" da China. Mas o sangue derramou duas vezes: em primeiro lugar, esse fazendeiro branco assassinado por canalhas políticos. Em seguida, dois militantes do movimento de oposição MMD (Movimento pela Mudança Democrática) foram carbonizados em seu carro, diante dos olhos indiferentes da polícia.
Se Mugabe não der um fim rapidamente nessas loucuras, o caos poderá devastar a antiga Rodésia, o Zimbábue, e veremos acender uma enorme fogueira a dois passos da áfrica do Sul, esse grande país fragilizado pela saída de seu presidente carismático, Nelson Mandela.





