Pesquisadores do Instituto Carlos Chagas, da Fiocruz de Curitiba, em parceria com a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), divulgaram ontem o resultado de um estudo que confirma que o zika vírus consegue atravessar a placenta das gestantes. A equipe examinou amostra de placenta de uma paciente do Nordeste que sofreu aborto. No tecido, eles encontraram amostras do DNA do vírus.
De acordo com a patologista da PUC, Lúcia Noronha, a mulher havia contraído zika semanas antes de perder o bebê, que tinha 12 semanas de gestação. A primeira confirmação, por meio da anatomia patológica, foi de uma infecção na placenta. "Ao analisarmos no microscópio, percebemos uma placentite, que é causada por vários micro-organismos, entre eles vírus, como o da herpes, por exemplo", explicou.
Com a certeza de uma infecção viral, o material foi encaminhado para a divisão de virologia do Instituto Carlos Chagas. Como a mulher tinha histórico de zika, os cientistas fizeram testes por meio de PCR, exame que detecta traços de material genético do patógeno. "Para confirmarmos que era realmente infecção por zika vírus, amostras desse tecido que apresentavam alterações morfológicas foram retirados e utilizados para a análise por técnicas moleculares. Realizamos a identificação do genoma viral, através de técnicas de RT-PCR em tempo real, que confirmou a infecção de células da placenta por zika vírus e a transmissão placentária", detalhou a virologista Claúdia Nunes Duarte dos Santos.
A mesma técnica foi aplicada para descartar outros origens da infecção. "Foram também realizados exames em tempo real para descartarmos infecção por dengue, que foram negativos", acrescenta a pesquisadora. A investigação conjunta entre a Fiocruz Paraná e a PUC revelou a imunopositividade em células de Hofbauer, presentes na placenta. "Em vista disto, uma hipótese razoável seria que o zika vírus pode estar utilizando a capacidade migratória das células para alcançar os vasos fetais", avaliou Lúcia. O resultado do estudo é tema de um artigo que será publicado na revista científica Memórias do Instituto Oswaldo Cruz.
A patologista informou que este foi o primeiro passo da pesquisa sobre o zika vírus, que deve prosseguir pelos próximos meses. "A infecção intrauterina pelo zika é uma descoberta única, pois não existe nenhum relato no mundo de placentite por esse tipo de vírus", ressaltou. "As questões ligadas ao zika ainda são pouco conhecidas. A detecção da quebra da barreira placentária é importante, porque são poucos os micro-organismos que conseguem romper esta proteção", completou.
Cláudia listou os reflexos que o estudo pode trazer para a Ciência. "Embora não possamos relacionar esses achados com os casos de microcefalia e outras alterações congênitas, este resultado confirma, de modo inequívoco, a transmissão intrauterina do zika vírus, além de contribuir na aquisição de conhecimento sobre sua a biologia e interação com células do hospedeiro e auxiliar no delineamento de estratégias antivirais que visem bloquear o processo de infecção e transmissão", comentou a virologista da Fiocruz Paraná.

mockup