A confirmação de um caso autóctone de zika em Londrina, no fim do mês passado, fez explodir a procura pelos repelentes contra o mosquito Aedes aegypti nas farmácias. No caso do Exposis, único produto no mercado brasileiro com a substância icaridina – com duração mais longa – encontrá-lo nas prateleiras é praticamente impossível. De acordo com o laboratório francês Osler, a produção no Brasil aumentou 30 vezes nos últimos meses, mesmo assim o volume é menor que a demanda.
Em Londrina, apenas uma rede faz a venda do Exposis. Nesta semana, não havia nenhuma unidade no estoque das nove lojas da cidade. Raiane Ramos, gerente de uma farmácia no Centro, mostrou a seção da prateleira vazia. "Renovamos o estoque toda a semana com cerca de 40 produtos. Tudo o que chega é vendido em pouco tempo", relatou. O único repelente disponível na farmácia estava guardado longe da vista dos clientes com um bilhete de "reservado". Em várias farmácias, há lista de espera pelo produto, às vezes, até disputa acirrada no balcão. A procura é maior entre as gestantes por conta da relação entre o zika e malformação dos fetos, que segue em estudo por cientistas.
A falta do repelente fez surgir um "mercado negro" do produto. Pessoas mal intencionadas compram o Exposis nas farmácias e comercializam por até três vezes mais caro em sites de venda na internet. Em uma rápida busca entre os anúncios virtuais de todo o País, a reportagem encontrou vendedores em várias cidades paranaenses como Arapongas, Maringá, Campo Largo, Cascavel e Campina Grande do Sul.
O diretor-geral do laboratório Osler, que representa o Exposis no Brasil, Paulo Guerra, criticou os sites de venda que permitem anúncios de produtos controlados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). "Existem regras de armazenamento e outras questões que devem ser obedecidas. Não temos como garantir a integridade do produto a quem compra em postos não autorizados", criticou.
Guerra informou que notificou extrajudicialmente os sites para que retirem os conteúdos do ar. "Alguns deles disseram que a responsabilidade sobre a venda é apenas do vendedor, mas no nosso entender, ao dar publicidade, eles também são coniventes", avaliou. Para ele, o pior prejuízo é o consumidor achar que o próprio fabricante está agindo de má-fé ao lucrar com a tragédia. "Não é o momento de aumentar o preço. Saúde pública não é perfume ou pneu de carro para seguir a regra de oferta e demanda", completou.
Para tentar equilibrar a demanda, o laboratório começou a importar a icaridina da Europa de avião. "Até então, só usávamos o transporte marítimo. O que ajudou é que tínhamos um estoque grande, prevendo uma epidemia de dengue e chikungunya no verão. Isso permitiu essa velocidade de reação. Mas, por mais que aumentemos a produção, ela ainda será menor que a procura".
Além da icaridina, outras duas substâncias químicas são aprovadas para repelentes no Brasil: o DEET, encontrado em produtos como OFF e Repelex; e o IR3535, da Loção Antimosquito Jonhson’s Baby - este último aprovado para bebês a partir dos seis meses.
De acordo com o infectologista Márcio Fernandes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia, todos os produtos no mercado têm ação repelente. "A icaridina torna o risco de contaminação menor por durar mais horas, já que o usuário precisa de menos aplicações durante o dia", explicou.
O Exposis tem a icaridina concentrada a 20%, o que garante a proteção por dez horas. Nos dias mais quentes, porém, é recomendada a reaplicação entre 6 e 8 horas. O DEET é encontrado em concentrações entre 7% e 15% e deve ser repassado na pele em intervalos mais curtos. O IR3535 tem concentração de 12% na Loção Antimosquito, o que faz com o que o produto deva ser repassado a cada 4 horas.

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