Washington, 08 (AE) - Ainda não foi desta vez que a China obteve a luz verde dos Estados Unidos, seu mais importante parceiro comercial, para ingressar na Organização Mundial de Comércio - um objetivo que Pequim persegue abertamente desde pelo menos o lançamento da Rodada Uruguai do Acordo Geral de Comércio e Tarifas, em 1986.
Mas intensas negociações preliminares e horas de conversações entre o primeiro-ministro da China, Zhu Rongji, e o presidente Bill Clinton, em Washington, na quarta-feira e hoje, produziram avanços suficientes para colocar a demanda da China na reta final e tornar provável seu acesso à OMC antes do início da próxima rodada de negociações da organização, marcada para o fim de novembro próximo, em Seattle.
É isso, em essência, o que diz o comunicado conjunto que os dois líderes divulgaram hoje à tarde, ao final de suas conversas. Sobre a entrada da China na OMC, Zhu disse que "as diferenças que nos separam não são muito significativas". Ele acrescentou, em seguida, que Clinton não concorda com essa avaliação. "Mas eu diria que o problema é mais político do que de diferenças significativas", disse o premier chinês.
"Não creio que existe nenhum problema que não possa ser resolvido em consultas amistosas entre os nossos dois países", acrescentou Zhu, um político de estilo atipicamente direto para um líder chinês e que gosta de surpreender as platéias estrangeiras com tiradas de humor ou frases como as que usou para encerrar seu discurso hoje, na cerimônia oficial de acolhida, no jardim da Casa Branca. "Amo o povo chinês, amo o povo americano", disse Zhu, em inglês.
Clinton foi menos efusivo em sua avaliação da visita, hoje à tarde.
Ele afirmou que "os Estados Unidos têm interesse no sucesso de uma China capaz de superar os desafios que enfrenta em casa e no exterior".
Mas criticou a política de direitos humanos de Pequim. Sobre o acesso da China na OMC, ele confirmou que "fizemos progressos substanciais e nos comprometemos a encerrar as negociações este ano".
Esse desfecho e o tom cordial e amistoso dos pronunciamentos públicos dois dois governos durante a passagem do líder chinês por Washington garantiram o sucesso diplomático da visita - a primeira de um chefe do governo chinês aos EUA em 15 anos - , sobretudo quando se tem em conta a atmosfera francamente hostil que existe hoje no Congresso americano em relação à China.
A hostilidade foi alimentada nos últimos anos por vários fatores: alegações de que Pequim teria tentado influir na política interna americana canalizando recursos, secretamente, para os cofres do Partido Democrata; as denúncias de violação de direitos humanos e de perseguição de dissidentes políticos na China; suspeitas de que o governo chinês teria surrupiado segredos nucleares dos EUA na década de 80 e, novamente, em 1996.
Esta última acusação, sobre o roubo de tecnologia da bomba de neutro, foi assunto de primeira página do New York Times de hoje e é especialmente danosa a Clinton porque compromete o argumento de sua administração, segundo o qual a espionagem chinesa era história passada e ocorrera apenas durante administrações republicana. O bombardeio da Iugoslávia pela OTAN, que foi pronta e duramente criticado pela China, também contribuiu para complicar o ambiente para a visita e por pouco não leva a seu cancelamento.
Grande articulador do programa de reforma e abertura econômica da China, Zhu disse que o resultado de sua visita a Washington não deve ser medido pelo número de acordos que os dois governos assinaram, mas pelos contatos e as "conversas cordiais e francas" que os representantes dos dois governos tiveram. "O importante é que os membros da delegação da Republica Popular da China tiveram a oportunidade de encontrar com pessoas de diferentes setores da vida americana", afirmou ele sobre seu giro de nove dias por seis cidades, que incluirá ainda encontros com empresários, visita a um time de futebol americano e ao pregão da Bolsa de Valores de Nova York.
Sob forte pressão no Capitólio para não fazer concessões a Pequim mas interessado, ao mesmo tempo, em evitar gestos ou iniciativas que pudessem minar a posição de Zhu em casa, Clinton elogiou a liderança do primeiro-ministro chinês no processo de reformas econômicas da China, mas lamentou, ao mesmo tempo, "os passos dados para trás" no último ano na área dos direitos humanos, com a prisão de dissidentes, bem como a recusa de Pequim de abrir um diálogo com o dalai lama, o líder espiritual do Tibete.
Os acordos sacramentados hoje representam concessões da China para ganhar acesso à Organização Mundial de Comércio. Pequim concordou em abrir seu mercado para cítricos, carnes e trigo produzido nos estados americanos do Pacífico. Os dois governos ampliaram também seu acordo aéreo, o que permitirá dobrar o transporte de carga e de passageiros entre um número maior de cidades nos dois países.
Atendendo a uma antiga demanda de Washington para coibir a pirataria de programas de computador, Zhu anunciou que seu governo já instruiu todas as agências oficiais a usar apenas programas de computador licenciados pelo fabricante. Além disso, a China concordou em reduzir a tarifa de importação média de 50% para 10% em cerca de cinco mil produtos.
Entre as questões não resolvidas está a resistência da China a abrir suas companhias de telecomunicação a uma maior participação do capital estrangeiro e permitir que bancos americanos operem no país em moeda local. Pequim indicou, também, que pretende manter a proteção tarifária a produtos de madeira, papel, farmacêuticos, automóveis , químicos e de algumas outras indústrias.
Funcionários chineses indicaram que concessões em algumas dessas áreas dependerão de gestos recíprocos dos EUA, como a retirada de uma quota para têxteis na qual Washington insiste por temer que políticos dos estados têxteis do sul dos EUA negarão apoio ao um acordo de acesso da China à OMC, se essa proteção à indústria doméstica desaparecer.

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