Yeltsin renuncia e passa o poder ao primeiro-ministro Putin
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sexta-feira, 31 de dezembro de 1999
Por Barry Renfrew 
Moscou, 31 (AE-AP) - Boris Yeltsin surpreendeu a Rússia nesta sexta-feira (31) ao anunciar sua renúncia à presidência e a realização de eleições dentro de 90 dias, para que um novo presidente lidere a nação na transição para o novo século. Yeltsin também pediu desculpas por seus erros.
Ele declarou que estava deixando o cargo imediatamente porque desejava que o primeiro-ministro Vladimir Putin o sucedesse. Putin, atualmente o político mais popular do país, assumiu o controle do governo imediatamente, devendo atuar como presiente interino até as eleições.
Pálido e com aspecto triste durante o discurso que proferiu pela televisão nacional, Yeltsin, de 68 anos, declarou que chegara a hora de ele se afastar. Pediu aos russos que desculpassem os seus erros e o fato de ele não ter realizado os sonhos dos cidadãos após o colapso da União Soviética.
"Hoje, no último dia deste século, eu renuncio," disse, diante de uma árvore alegremente decorada para o Ano Novo e de uma bandeira russa azul, vermelha e branca, com a águia russa dourada.
"Estou deixando a presidência antes do fim do mandato. Entendo que devo fazer isso e que a Rússia deve entrar no novo milênio com novos políticos, caras novas, com pessoas novas, inteligentes, fortes, enérgicas, e que nós, que estivemos no poder durante muitos anos, devemos sair."
Esse foi mais um movimento inesperado de Yeltsin, que presidiu a Rússia durante oito anos tumultuados, frequentemente caóticos. Suas tentativas de criar uma economia de mercado foram profundamente prejudicadas pela corrupção e incompetência, e isso o tornou mal visto pela maioria dos russos. Presume-se que muitos russos tenham recebido com satisfação a notícia da renúncia de Yeltsin.
Parecendo emocionado, Yeltsin pediu desculpas várias vezes por não ter resolvido os problemas da Rússia. "Eu lhes peço desculpas por não ter conseguido passar, de um salto, do passado cinzento, estagnado, totalitário, para um futuro claro, rico e civilizado," disse. E acrescentou: "Eu estou saindo. Fiz o que pude."
Com a notícia, o mercado de ações russo deu um salto, atingindo seu ponto mais alto em 15 meses, enquanto corretores afirmavam que as esperanças de uma nova liderança forte depois de Yeltsin favoreceriam a economia.
"Foi muito inesperado," comentou Lyusmila Smirnova, de 54 anos, que vive em Moscou. "Ainda não posso dizer o que tudo isso significa." Yeltsin entregou a Putin a chamada "maleta nuclear", que contém os códigos de lançamento de armas nucleares. O presidente também entregou ao primeiro-ministro medalhas que simbolizavam o seu status presidencial e sua caneta presidencial, diante do patriarca ortodoxo russo Alexy II.
Em seguida, Yeltsin foi para sua casa de campo, fora de Moscou
e Putin convocou uma reunião de emergência do Gabinete. O Kremlim revelou que Yeltsin ainda planeja viajar a Belém em janeiro, para as comemorações de Natal ortodoxas.
"O grupo de Yeltsin que estava no poder caiu", declarou o líder comunista Gennady Zyuganov, que ficou em segundo lugar nas eleições presidenciais de 1996. Ele exortou seus partidários a se mobilizarem a favor de um candiato presidencial comunista.
O momento da renúncia parece ter sido escolhido com o objetivo de capitalizar o sucesso dos partidos centristas pró-Kremlim nas eleições parlamentares recentes. Os partidos que apóiam Putin obtiveram resultados surpreendentemente bons, favorecendo a intenção de colocá-lo no Kremlim como sucessor de Yeltsin.
Sob a Constituição russa, as eleições presidenciais devem ser realizadas no prazo de 90 dias a contar da renúncia do presidente. A agência de notícias ITAR-Tass informou que as eleições presidenciais serão realizadas por volta de 27 de março.
Putin, detentor do controle efetivo do governo, que abrange a mídia estatal, tem uma grande vantagem na corrida pela sucessão de Yeltsin. Segundo consta, Yeltsin, que se tornou alvo de acusações de corrupção nos meses recentes, procurou obter garantias de segurança para si e a família após a renúncia. Como presidente interino, Putin teria condições de conceder a imunidade que ele deseja.
Afetado durante anos por doenças de coração e outros problemas de saúde, Yeltsin adoeceu e ficou fora da vista do público frequentemente durante o segundo mandato. Ele passou muitas semanas na sua casa de campo e era visto, em grande parte, como um presidente interino.
Entretanto, Yeltsin continuou a dominar a política russa, apesar da enfermidade. Ele derrotou facilmente uma tentativa dos comunistas, em maio, de promover o seu impeachment e demitiu quatro primeiros-ministros nos últimos dois anos.
Embora tenha sido impopular durante anos, Yelstin conquistou um segundo mandato em 1996, derrotando o líder comunista Gennady Zyuganov. A maioria dos russos decidiu preferir a administração Yeltsin, marcada pelo escândalo, a uma tentativa de voltar ao passado soviético.
O Kremlim foi alvo de constantes ataques políticos no decorrer do último ano, com acusações amplamente difundidas de corrupção, transações financeiras privilegiadas e outras irregularidades. Também foram acusados outros membros da família do presidente, sobretudo sua filha Tatyana Dyachenko. Promotores da Suíça e da Rússia estão fazendo investigações, mas ainda não foram feitas acusações formais.
Yeltsin também fez um apelo para que os russos o perdoassem pelos erros de sua administração. Essa foi uma admissão incomum da parte de um líder que raramente admitiu ter cometido êrros e sempre insistiu em afirmar que sua política era correta. "Quero pedir desculpas pelos seus sonhos que nunca se concretizaram," disse Yeltsin. "Também quero pedir desculpas por não ter justificado as suas esperanças."
Yeltsin afirmou que não via razão para permanecer no poder nos últimos seis meses de seu mandato porque Putin tinha condições adequadas de assumir suas funções. Ele se declarou confiante de que a Rússia não retornará ao seu passado autoritário e se desenvolverá como nação democrática e moderna.
"Eu não deveria ser um obstáculo ao curso natural da história", prosseguiu. "Apegar-me ao poder por mais seis meses
quando o país conta com uma pessoa forte, que merece ser presidente. Por que eu deveria ficar no seu caminho? Por que eu deveria esperar? Isso não é de meu caráter."
Putin cancelou imediatamente uma viagem a São Petersburgo e manteve consultas com outros líderes do governo no Kremlim. Não ficou claro se haverá mudanças imediatas no governo.
Putin, ex-oficial da KGB que se tornou primeiro-ministro em agosto, é amplamente considerado o político mais popular da Rússia. Seu modo enérgico de lidar com a guerra na Chechênia e sua objetividade têm poder de apelo sobre muitos russos, que querem que um líder forte trate dos enormes problemas econômicos
políticos e sociais do país.
A Rússia passou por anos de declínio econômico e milhões de seus cidadãos vivem na pobreza. As tentativas de criar uma economia de mercado quase não tiveram efeito sobre a vida da maioria das pessoas, enquanto os trabalhadores passam meses sem receber salários.
Putin, que já havia declarado que concorreria à presidência, indicou que dará continuidade à política democrática e de mercado de Yeltsin. Ele falou em combinar uma reforma moderada com um governo forte, para reprimir a ilegalidade e a corrupção amplamente difundidas.


