Yeltsin faz as pazes com o Ocidente Do correspondente PAULO SOTERO
Colônia, 20 (AE) - A briga entre a Rússia e o Ocidente em torno da questão de Kosovo terminou hoje (20), com o desfecho previsível. Depois de ter condenado o bombardeio de onze semanas da Iugoslávia pela Aliança Atlântica, violado um entendimento com Washington enviando tropas a Kosovo antes das chegada dos soldados da OTAN, reivindicado sem sucesso um posição de igualdade para a Rússia na administração do pós-guerra numa tensa negociação de três dias com os americanos, em Helsinque, o presidente Bóris Yeltsin usou a Cúpula do Grupo dos Oito para dar por encerrada a confrontação que, nas últimas semanas, chegou a alimentar fantasmas de uma volta da guerra fria.
"Precisamos fazer as pazes", disse o líder russo, que participou apenas do terceiro e último dia do encontro. "Isso é o mais importante", acrescentou. "Aqui, estou entre amigos".
Em sua ânsia de consertar os estragos que a guerra de Kosovo causou às relações entre Moscou, de um lado, e Washington e outras capitais ocidentais, de outro, o imprevisível líder russo mostrou-se disposto a retomar negociações de acordos suplementares para um acordo de limitação de mísseis balísticos intercontinentais, de 1972, que os Estados Unidos querem modificar para permitir o desenvolvimento de um sistema defensivo contra essas armas.
Yeltsin prontificou-se, também, a reativar o diálogo especial que a Rússia manteve com os EUA, até o ano passado, e anunciou que mandará seu novo primeiro-ministro, Sergei Stepashin, a Washington, para um encontro com o vice-presidente Albert Gore, em agosto.
Corado, mas com o rosto inchado e caminhando com dificuldade e apoiado num ajudante ao chegar a Colônia, Yeltsin apareceu sorrindo nas imagens gravadas no início do encontro com os líderes dos Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Itália, Inglaterra e Canadá.
"Estamos novamente abertos para negócios (com a Rússia)", disse o assessor de segurança da casa Branca, Samuel "Sandy" Berger. Mas admitiu, também, que o conflito com Moscou "deixou cicatrizes".
Em troca de sua nova disposição, francamente conciliatória, o líder russo recebeu três agrados de seus colegas do G-8. De mais substantivo, conseguiu o apoio para a retomada do acordo econômico entre a Rússia e o Fundo Monetário Internacional, se Moscou for capaz de levar adiante as reformas econômicas que estão empacadas na Duma, o parlamento russo.
Nesse caso, a luz verde do G-8 resultará na liberação de um crédito de US$ 4,5 bilhões do FMI (que a Rússia precisa para pagar dívida passada ao próprio Fundo) e na renovação de cerca de US$ 16 bilhões em créditos de governos e credores privados que vencem este ano e no ano que vem.
Yeltsin obteve também a cumplicidade de vários líderes para participar da encenação em curso em Moscou para convencer o mundo, e talvez a si próprio, de que está bem de saúde e em pleno comando de seu desacreditado governo. "Ele está fisicamente forte", disse o primeiro-ministro do Canadá, Jean Chrétien. "Não pode correr uma maratona, mas está bem".
Berger, disse, com um sorriso amarelo, que o líder russo "está robusto", "cheio de energia" e participou animadamente tanto do encontro do G-8 como de uma reunião separada que teve, depois, com o presidente Bill Clinton. Os dois não se encontravam há dez meses. O primeiro ministro inglês, Tony Blair, disse que, apesar das dificuldades que os aliados tiveram com a Rússia nas últimas semanas, a reconciliação que ocorreu durante a cúpula de Colônia "é genuina".
O anfitrião do encontro, o chanceler alemão Gerhard Schroeder, cujo país é o maior credor da Rússia, enfatizou a presença de Yeltsin como membro pleno do grupo das nações mais influentes - uma maneira prática e barata de afagar o ego russo e não dar pretextos para uma radicalização política num país repleto de armas nucleares mas, ao mesmo tempo, resolver as diferenças com Moscou sem fazer concessões em questões substantivas.
A única concessão que Yeltsin obteve em Colônia, na questão de Kosovo, foi simbólica. Em parte em deferência à Rússia, os líderes não inlcuíram no comunicado final da reunião nenhuma referência à saída de Slobodan Milosevic do poder, em Belgrado, como condição para a concessão de ajuda à reconstrução da Iugoslávia, que teve sua infra-estrutura devastada pelos 78 dias do bombardeio aliado.
Os Estados Unidos queriam, inicialmente, que isso ficasse estipulado no documento, mas cederam diante da insistência dos russos pela não inclusão. A omissão não significa, no entanto, que a política dos aliados mudou. Ela deixou também espaço para que os países da OTAN usem a tática do "um bate o outro assopra" para convencer os sérvios de que o Ocidente não está contra eles e os ajudará se eles pagarem o preço para entrar na família das nações democráticas da Europa, que é livrar-se de Milosevic, de preferência entregá-lo a julgamento na Corte Internacional de Justiça da ONU, pelos crimes de guerra de que é acusado, e instalar um governo democrático e racional em Belgrado.
Blair deixou claro que é isso que a OTAN espera numa entrevista coletiva, no final da cúpula. "Os sérvios precisam demonstrar que querem se juntar às nações civilizadas da Europa", disse ele, e que não tolerarão mais "as brutalidades inimagináveis" e "o imperdoável barbarismo" que os soldados e as forças policiais e paramilitares iugoslavas perpetraram em Kosovo.
Já Schroeder, que dirige a maior potência européia e tem interesses próprios, inclusive comerciais, na reconstrução dos Bálcãs, indicou que usará a "assistência humanitária" que os países da OTAN se dipõem a mandar para a Iugoslávia com grande flexibilidade. "Não podemos fazer os sérvios pagar pelos erros de Milosevic", disse ele. "Não podemos deixá-los sem eletricidade e aquecimento durante o inverno".
A declaração do líder alemão indica que, para a Alemanha, restabelecer o sistema de geração e distribuição de energia elétrica da Iugoslávia é parte da ajuda humanitária e não da reconstrução do país.
Os líderes do G-8 pediram à Alemanha que organize em breve uma conferência internacional num dos países afetados pela guerra - mais provavelmente na Macedônia ou na Albânia -, para discutir os planos de reconstrução a médio e longo prazos, com os maiores interessados. No mês que vem, o Banco Mundial e a União Européia já têm um reunião marcada em Bruxelas para quantificar e viabilizar a ajuda de emergência ao Kosovo e aos países vizinhos. A UE aprovou na semana passada uma verba de US$ 500 milhões de euros por anos, pelos próximos três anos, para essa tarefa.
O presidente Bill Clinton incluiu hoje uma escala na Macedonia à rápida viagem que fará amanhã e depois de amanhã aos Bálcãs. O roteiro original do presidente americano incluia apenas uma visita oficial à Eslovênia, a primeira das antigas repúblicas iugoslavas a se separar de Belgrado e a única que parece ter um futuro promissor. A conclusão, no prazo, da retirada das forças iugolavas do Kosovo, hoje, e a volta aos trilhos das relações entre Washington e Moscou animou Clinton a ir até a Macedônia, num gesto calculado para homenagear um pequeno país que pagou um alto preço pela guerra, recebendo centenas de milhares de refugiados em menos de dois meses, e saborear a vitória que seus críticos nos EUA e no resto do mundo julgavam impossível.





