Moscou, 09 (AE-AP) - O presidente Boris Yeltsin demitiu hoje (09) seu primeiro-ministro e todo o ministério pela quarta vez em menos de dois anos, levantando novas dúvidas sobre sua estabilidade e jogando o país num ciclo já familiar de turbilhão político.
Yeltsin nomeou um ex-agente da KGB, Vladimir Putin, como primeiro-ministro em exercício e disse que o estava ungindo como seu sucessor escolhido. Mas poucos acreditam que Putin, um burocrata politicamente inexperiente, tenha qualquer chance de ser eleito presidente.
A reação foi dura em todo o espectro político.
"Isso é uma agonia, uma total insanidade", declarou o líder do Partido Comunista, Gennady Zyuganov, numa entrevista a uma rádio. "Quem vai levar a sério um primeiro-ministro se eles os trocam como luvas?".
"É difícil explicar a loucura", disse Boris Nemtsov, um ex-vice-premier e proeminente figura da direita. "O povo está cansado de observar um líder enfermo que não é capaz de fazer seu serviço".
Yeltsin não explicou porquê demitiu Sergei Stepashin e, na verdade, elogiou-o "por seu bom trabalho" durante seus reduzidos três meses como primeiro-ministro. Num pronunciamento televisionado à nação, Yeltsin disse que queria nomear Putin para o cargo a fim de lançar as bases para a eleição presidencial de 2000.
"Estou convencido de que ele irá servir bem à nação enquanto trabalhando neste alto cargo, e os russos serão capazes de apreciar as qualidades humanas e empresariais de Putin", afirmou o presidente.
"Confio nele. Mas também quero que todos que forem às urnas em julho de 2000 e façam sua escolha que confiem nele também. Ele terá tempo suficiente para se mostrar".
A constituição russa impede que Yeltsin concorra a um terceiro mandato, e a mídia russa tem especulado que Yeltsin e seus assessores estão considerando a possibilidade de adiar ou cancelar as eleições numa tentativa de prolongar sua permanência no poder.
Zyuganov, o líder comunista, previu que Yeltsin irá impor estado de emergência como pretexto para permanecer no cargo.
O presidente de 68 anos tem estado enfermo na maior parte de seu segundo mandato, e seu comportamento errático tem levantado questões sobre sua estabilidade mental. Mas ele tem parecido de alguma forma mais saudável em meses recentes.
Putin, 46 anos, que já foi agente da KGB na Alemanha, vinha ultimamente servindo como chefe do Serviço de Segurança Federal, a principal agência sucessora da KGB. Ele disse que pretende seguir o plano de Yeltsin e irá disputar a presidência.
"Eu irei, de qualquer jeito", afirmou ele a repórteres. "Meu dever é dar uma resposta afirmativa a esta pergunta".
No momento atual, Putin seria a maior zebra em qualquer corrida presidencial. Uma figura afável, pouco conhecida do público em geral, ele não parece estar na mesma divisão de líderes estabelecidos como o prefeito de Moscou, Yuri Luzhkov, e o ex-primeiro-ministro Yevgeny Primakov.
E o endosso de Yeltsin, cujos índices de popularidade estão geralmente abaixo dos cinco por cento, é uma bênção mista no melhor dos casos.
"Ele é mais um burocrata do que um líder nacional", disse Yevgeny Volk, um analista político da conservadora Heritage Foundation, desconsiderando as perspectivas eleitorais de Putin. "Ele não tem carisma".
Putin adiantou que não haverá grandes mudanças no gabinete, apesar de todos seus membros terem sido demitidos e terão de ser novamente nomeados.
Ainda assim, a mudança no topo irá sacudir politicamente o país, como ocorreu na demissão dos ex-primeiros-ministros Viktor Chernomyrdin, Sergei Kiriyenko e Primakov - todos exonerados nos últimos 17 meses.
O rublo começou a cair imediatamente com as notícias da demissão de Stepashin, indo dos 24,9 em relação ao dólar a 25 9.
A comoção veio num momento potencialmente arriscado, quando forças russas estão sendo deslocadas para conter o maior levante interno desde a guerra com a república separatista da Chechênia.
Tropas russas têm bombardeado posições de centenas de militantes na região montanhosa caucasiana de Daguestão, vizinha da Chechênia, desde sábado. O último ato oficial de Stepashin - apesar de ele aparentemente não saber no momento - foi correr para o Daguestão no domingo para realizar reuniões de emergência com líderes regionais e militares.
Stepashin, conhecido como um dos assessores mais fiéis de Yeltsin, parecia abalado em seu discurso de adeus ao gabinete.
"Esta manhã, visitei o presidente e ele assinou um decreto sobre minha renúncia. Ele me agradeceu pelo bom trabalho - e me demitiu", disse ele solenemente. "Falei ao presidente que tenho estado, estou e continuarei com ele até o fim".
As sessões de confirmação de Putin começarão na próxima segunda-feira na Câmara baixa do Parlamento, a Duma, disse o presidente da casa, Gennady Seleznyov. Alguns legisladores previram que haverá uma rápida confirmação.
Se a indicação de Putin for rechaçada três vezes, Yeltsin será obrigado a dissolver o parlamento, algo que legisladores provavelmente não vão querer. Eles enfrentarão eleições parlamentares em dezembro, e podem não querer perder as vantagens do mandato.

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