Yeltsin demite Primakov e joga a Rússia em nova crise
Moscou, 12 (AE-AP) - O presidente Boris Yeltsin destituiu hoje (12) pela terceira vez em pouco mais de um ano o primeiro-ministro e todo o gabinete, lançando a Rússia em uma grave crise.
A dramática medida, anunciada pelo presidente num sombrio discurso na televisão, parece ter sido programada para funcionar como um ataque defensivo contra o parlamento, que estava disposto a dar início amanhã a procedimentos de impeachment.
A iniciativa colocou a bola de volta na quadra do presidente - mas a um preço potencialmente desastroso para o país.
Além de colocar Yeltsin em rota de colisão com o parlamento, as demissões ameaçam perturbar o processo de paz de Kosovo, causar novos danos à abalada economia da Rússia e balançar a estabilidade política que o primeiro-ministro Yevgeny Primakov tinha trabalhado duro para alcançar.
"Estamos preparados para qualquer desenlace porque não existe lógica nas ações de Yeltsin e sua entourage", afirmou o líder do Partido Comunista, Gennady Zyuganov, a repórteres depois do anúncio do presidente.
Foi Primakov, o ex-ministro do Exterior e chefe de espionagem, quem sofreu a maior queda, perdendo um emprego que vinha mantendo desde setembro último, quando foi convocado para juntar os cacos depois da quebra da economia da Rússia.
Enquanto a neve caía do lado de fora num incomum dia sombrio de primavera, Yeltsin sentou-se ante uma bandeira da Rússia no Kremlin e disse à nação que ele havia sido forçado a demitir Primakov porque o primeiro-ministro não tinha conseguido impulsionar a economia.
"O tempo para conversa calma acabou. É o tempo certo para tomar medidas enérgicas", afirmou Yeltsin, falando inusualmente devagar, sua face inchada, seus movimentos sombrios.
Ele anunciou que o ministro do Interior Sergei Stepashin, um fiel aliado de Yeltsin que comanda dezenas de milhares de tropas do Departamento do Interior e polícia, iria tornar-se primeiro-ministro interino.
O presidente também nomeou Stepashin para ser o substituto permanente de Primakov, mas a indicação parece ter poucas chances de ser aprovada na Duma, a Câmara baixa do Parlamento.
Na verdade, Yeltsin está forçando uma crise política ao nomear uma figura que é odiada - e talvez temida - no parlamento.
Pela constituição russa, se a Duma rejeitar três vezes uma escolha de Yeltsin, o presidente é forçado a dissolver o parlamento e convocar novas eleições. A última vez que Yeltsin dissolveu o parlamento foi em 1993 e isto levou a uma crise profunda que terminou com tanques russos bombardeando o prédio do parlamento.
Yeltsin não pode dissolver a Duma se ela aprovar primeiro o processo de impeachment, mas ele pode declarar estado de emergência e simplesmente ignorar o parlamento.
Ainda, "Yeltsin... está em águas turvas, com seu controle e sua saúde falhando mais do que nunca", disse Ariel Cohen, que estuda a Rússia para a conservadora Heritage Foundation, em Washington.
Cohen afirmou que fontes no Kremlin lhe disseram que Yeltsin pretende empurrar a Duma para sua dissolução - tiro que pode sair pela culatra, se um irado eleitorado decidir votar nos adversários comunistas de Yeltsin nas eleições para um novo parlamento.
Yeltsin "mais uma vez provocou uma grave crise política", advertiu Viktor Ilyukhin, um líder comunista na Duma. Outro proeminente deputado, Sergei Baburin, disse que a iniciativa foi "o maior e mais imperdoável erro" de Yeltsin.
Mas o ex-primeiro-ministro Viktor Chernomyrdin pediu a dissolução da Duma e a convocação de eleições antecipadas nas quais candidatos individuais, em vez de partidos, concorreriam a cadeiras no parlamento, informou a agência de notícias Interfax. Ele disse que seria melhor se a Duma fosse dissolvida por sua própria vontade.
Ele disse que a Duma "não poderia unir as forças construtivas do corpo legislativo para um extremismo efetivamente oposto" e estava engajada apenas em debates políticos ao invés de "criar a base legislativa para o desenvolvimento da sociedade civil".
A crise veio num momento crítico para a Rússia em muitas formas. O governo está engajado em sensíveis conversações com credores internacionais sobre uma restruturação da dívida, e está desempenhando um papel-chave na tentativa de mediar uma solução entre a Otan e a Iugoslávia.
Em Washington, o porta-voz da Casa Branca, Joe Lockhart, disse que a administração americana não tinha comentários a fazer sobre "política interna russa", mas acrescentou:
"Sobre Kosovo, os russos têm desempenhado um papel construtivo, esperamos que isto continue... Também esperamos que a Rússia continue no caminho das reformas econômicas"
Yeltsin tem uma longa história de demitir assesores, muitas vezes porque eles parecem estar obscurecendo ele. Desde março do ano passado, ele demitiu três primeiros-ministros - Viktor Chernomyrdin, Sergei Kiriyenko e agora Primakov.
Desta vez, entretanto, parece ser o caso mais sério.
A popularidade de Primakov chegou às alturas nos últimos meses
mesmo enquanto a de Yeltsin continuava a afundar. O presidente tem perdido muito de sua antes vangloriada influência política, com antigos leais aliados abandonando-o em bandos.
A Duma aprovou uma resolução sem força de lei nesta quarta-feira exigindo a renúncia de Yeltsin, e também pediu por uma reunião de emergência de todo o parlamento, incluindo a Câmara alta, para discutir a nova crise política.
Num pouco percebido pequeno pé-de-página ao tremor de hoje, um dos mais respeitados porta-vozes de Yeltsin, vice-chefe do Gabinete Oleg Sysuyev, anunciou que ele estava renunciando. Ele não apresentou os motivos. Poucas semanas atrás, Sysuyev garantia a repórteres que rumores sobre choques entre Yeltsin e Primakov "não tinham nada a ver com a realidade".
Primakov é frenquentemente mencionado como um potencial candidato para as próximas eleições presidenciais, marcadas para 2000, apesar de ele negar categoricamente ter qualquer ambição ao cargo maior.
Yeltsin reuniu-se com Primakov por 20 minutos no Kremlin antes do anúncio da demissão, mas não houve detalhes do encontro. Primakov foi demitido depois de recusar-se a renunciar, informaram agências de notícias russas.
Primakov não criticou Yeltsin depois de tudo, dizendo apenas que havia feito o melhor que pôde como premier. "Fizemos nosso trabalho como pudemos, profissionalmente, e eu acredito que ele foi bom", afirmou ele a seu gabinete numa reunião final.
Sergei Markov, um analista político em Moscou, disse que a demissão irá apenas fortalecer a imagem de Primakov. Agora, afirmou ele, Primakov "será praticamente forçado a concorrer à presidência".





