Paris, 07 (AE) - A imprensa russa se interessa muito por Kosovo. É fácil de entender os motivos: para criticar com moderação a ação da Otan, para buscar uma saída de emergência para esta guerra sinistra. Mas, esta mesma imprensa se dedica cada vez mais à efervescência que reina no interior da Rússia. E
se dermos crédito aos principais jornais, o presidente Boris Yeltsin nos preparou uma dessas "surpresas" de que tanto gosta. E seria esta: O inteligentíssimo primeiro-ministro russo, Evgueny Primakov, seria brevemente exonerado.
Podemos acreditar nestas previsões? O profissionalismo dos jornalistas russos, habituados de longa data aos métodos ditatoriais do cumunismo, muitas vezes falhou. Por isso, hesitamos em acreditar cegamente em suas previsões. Mas, o que mais nos interessa neste caso é a maneira como os jornalistas russos foram informados a respeito de um eventual afastamento de Primakov.
Foi o próprio Boris Yeltsin - esse morto perpétuo, perpetuamente ressuscitado. E como fez ele para dar a conhecer aos jornalistas essa informação? Um comunicado? Uma entreevista? - Absolutamente. O quê então? Gestos de fantasmas num teatro de sombras, de símbolos tão sutis que ninguém saberia o que significam. Tentemos ver um pouco mais claro.
A cena ocorreu há pouco, no Kremlin: no dia 5 de maio. durante uma reunião solene para preparar os 2000 anos de cristianismo (Interessante! Este Yeltsin, ex-chefe comunista, é hoje um cristão insaciável). A cerimônia foi mostrada ao vivo pela TV russa.
Boris Yeltsin pronunciou um grande discurso. Depois das primeiras palavras, o presidente parou. Seria mais uma de suas habituais perdas de memória? Não. Yeltsin lançou um olhar lento e pesado sobre os convidados. E disse: "Eles não estão bem sentados! Serguei Stepashin é o primeiro primeiro-ministro. Que ele mude de lugar".
Serguei Stepashin, nomeado o segundo homem do governo há dez dias, obedeceu e veio sentar-se ao lado de Primakov, que por sua vez estava ao lado de Yeltsin.
Depois, foi a vez de Primakov tomar a palavra. E, como de costume, seu discurso foi imensamente enfadonho. Yeltsin ficou nervoso. E, ao vivo, a televisão mostrou o presidente exasperado. A transmissão televisiva terminou nesse momento.
Nada, nenhuma palavra deixou entender que Primakov poderia ser substituido pelo novo vice-primeiro-ministro Stepashin. Mas os jornalistas russos, acostumados a interpretar os silêncios, as distrações, os suspiros, estão convencidos de que os dias de Primakov estão contados. Porque? Talvez porque Primakov é um bom primeiro-ministro, porque ele consolidou sua autoridade, ou então, por razões ideológicas, por exemplo, porque Primakov tem o apoio complacente dos comunistas? Um mistério.
Os jornais acham que a mudança poderia ser para breve, entre os dias 10 e 15 de maio, como afirmou o jornal Vremia. E, quase no mesmo momento, o diário Kommersant divulgava uma entrevista com o assessor de Yeltsin, Oleg Sussuyev: "Nenhum primeiro-ministro é insubstituível...
"Primakov não é o Messias", disse ele.
Será preciso concluir que Primakov vai desaparecer? Não nos precipitemos: como confiar nesses sinais dissonantes e confusos que nos chegam de Moscou? Pelo menos é certo que algo está acontecendo neste momento nas altas esferas do Kremlim.

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