Moscou, 09 (AE-IPS) - A última surpresa do presidente russo, Boris Yeltsin, não foi tanto a destituição de seu apagado primeiro- ministro Sergei Stepashin, nem a nomeação de Vladimir Putin, um advogado e oficial de inteligência que não figurava entre os favoritos para o cargo.
Como em outras ocasiões, Yeltsin não se sentiu obrigado a explicar a seus compatriotas, nem tampouco ao surpreendido Stepashin, as razões para a mudança, exceto que considera Putin - até agora o chefe do Serviço Federal de Segurança - o melhor candidato para sucedê-lo na presidência da Rússia.
Para a maior parte dos observadores, é mais relevante a indicação de Putin como futuro candidato presidencial do que como primeiro- ministro.
Yeltsin respondeu desta forma à ofensiva política lançada nas últimas semanas pelo prefeito de Moscou, Yuri Luzhkov, que promove uma coalizão política de centro-esquerda visando levar para a presidência o ex-primeiro-ministro Yevgeny Primakov, que se tem mantido em silêncio.
Primakov, um diplomata, economista e também ex-oficial de inteligência, aparece nas pesquisas como o político mais popular do país, depois de desempenhar por oito meses a chefia do governo, que assumiu após o colapso financeiro de agosto de 1998.
Despedido há três meses, quando suscitava um raro consenso entre as forças políticas russas, Primakov se havia perfilado como um dirigente com idéias, métodos e estratégia diametralmente diferentes dos de Yeltsin, cujo governo tem se caracterizado pelo predomínio de grupos de influência.
Primakov lançou uma campanha direta contra o tráfico de influência, e em particular contra o magnata financeiro Boris Berezhovski, próximo a Yeltsin, que controla grande parte dos meios de comunicação e foi acusado pela procuradoria estatal de fraude e suborno.
Os mais cotados aliados de Yeltsin, como o ex-primeiro-ministro Viktor Chernomyrdin, e os ministros e assessores político-econômicos Anatoly Chubais e Yegor Gaidar, têm sido envolvidos com frequência em escândalos que estão na base do desastre financeiro de 1998.
Com um passado de funcionário de espionagem exterior soviética na ex-KGB, Putin não aparece diretamente vinculado nem com as reformas econômicas neoliberais dos últimos nove anos nem com os escândalos.
As pesquisas têm colocado Yeltsin com um índice de popularidade de apenas dois por cento. Seriamente enfermo, o presidente apenas consegue cumprir as obrigações do cargo, mas resiste firmemente às pressões para que renuncie, que vem da maioria opositora na Duma (Câmara baixa do Parlamento).
A maioria dos dirigentes políticos russos considerou um erro a exoneração de Stepashin, mas o presidente da Duma, o comunista Gennady Seleznev, disse hoje que acreditava que o parlamento iria confirmar o novo primeiro-ministro, em reunião especial convocada para sexta-feira.
Se o parlamento rechaçar três vezes o premier designado, a constituição russa estabelece que o presidente pode dissolver a Duma e convocar eleições antecipadas, o que pegaria desprevenida uma oposição majoritária mas dividida.
A eventual candidatura de Primakov ainda não conta com o apoio do Partido Comunista, a primeira força política do país, cujo líder, Gennady Zyuganov, considerou que a nomeação de Putin apenas reflete "a agonia de morte deste regime".
Stepashin, também um ex-funcionário dos serviços de segurança, realizou uma gestão discreta mas relativamente bem sucedida, depois de convencer os Estados Unidos e o Fundo Monetário Internacional a liberar um crédito de US$ 4.5 bilhões na semana passada, destinado a equilibrar a balança de pagamento.
Na manhã de hoje, Yeltsin "agradeceu meu bom trabalho e me despediu", informou um consternado Stepashin a seu gabinete.
As especulações palacianas dos últimos dias não haviam definido ainda se Stepashin seria declarado culpado dos males da Rússia ou premiado com a candidatura presidencial frente à iniciativa política de Luzhkov, que se propõe a restituir à Rússia seu poderio perdido.
Desde o colapso da União Soviética em 1991, a Rússia deixou de ser uma superpotência econômica e militar para exibir estatísticas sociais de um país em desenvolvimento, com crescentes taxas de mortalidade.
Georgia Derluguian , especialista em Rússia na Universidade Northwestern, em Chicago, disse à IPS que as razões do declínio econômico russo devem ser encontradas em seu sistema político.
"No seu início, o regime de Yeltsin tentou estabelecer-se sobre uma plataforma neoliberal, mas terminou em um suicídio ideológico", afirmou Derluguian.
"Mais tarde, Yeltsin apoiou abertamente as privatizações corporativas manipuladas, a escandalosa aparição de um capitalismo de cupinchas e uma nova classe de novos ricos", acrescentou.
Depois de alguns anos mirando o Ocidente, as últimas pesquisas revelam um vigoroso renascimento do nacionalismo russo, que provavelmente favorecerá aos candidatos, desde a extrema-direita aos comunistas, que prometem restabelecer o orgulho ferido do país.

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